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que regula a psicanálise? - Rosângela Gazzi Macedo (Iepsi)
O que regula a psicanálise?
Rosângela Gazzi Macedo (Iepsi)
(publicado na Revista da Escola Letra Freudiana,
Ano XXII, n.32, mai/2003)
As sociedades psicanalíticas de Minas Gerais e do Brasil,
através de movimentos como o da Articulação
e do Movimento Mineiro, vêm se reunindo para discutir sobre
a proposta de regulamentação da profissão de
psicanalista. Esses movimentos provocam e convocam os analistas
a um debate sobre o lugar da psicanálise no mundo atual,
retomando seus próprios conceitos e a sua ética.
A psicanálise, desde a sua invenção por Freud,
contou com uma extra-oficialidade que a beneficiou, não demandando
para si nenhum tipo de legislação oficial, pois tais
regulamentações iriam se contrapor ao seu campo de
trabalho que é o do sujeito do inconsciente e cuja ordenação
não se dá pela via da legislação vigente
em outros campos sociais.
A psicanálise é uma função que se opera
a partir da experiência do analista no interior da sua própria
análise, e é por isso que a formação
do psicanalista é tão complexa . E, pela mesma razão,
ela não existe como profissão autônoma em nenhum
lugar do mundo.
Legalizar, então, a psicanálise é desconhecer
exatamente o seu princípio fundamental, ou seja, a descoberta
do inconsciente.
O fazer do psicanalista não se rege por normas, estatutos
elaborados ou a partir de acúmulo de conhecimentos que se
impõem a priori. Refere-se a um campo muito específico
e particular. É um saber diferenciado em que a análise
pessoal é a experiência fundamental para se tornar
analista.
A proposta básica da psicanálise de sustentar a singularidade,
o sujeito da diferença, sofre com a possibilidade de uma
regulamentação da profissão de psicanalista,
o risco de perder, justamente, o que ela tem a oferecer que é
a chance do sujeito situar-se como desejante, de elucidar esse desejo
irredutível, indomável que constitui o que há
de mais particular em cada um. Incluir na vida o impossível
de se arranjar - de não ter como eliminar o mal-estar é
ter, como nos diz Freud , a possibilidade de trocar a miséria
neurótica pela miséria humana.
Os psicanalistas, em defesa dessa incompletude, dessa não
resposta, de um real impossível de dizer, são jogados
num vazio difícil de tolerar e são confrontados com
a constante questão da sobrevivência da psicanálise.
Como, então, articular o impossível de se escrever
do real da experiência psicanalítica, algo atópico,
fora do mundo, que Lacan situou como imundo, às leis comuns
a que somos submetidos? Como instituir a formação
do analista? Como fazer o nó entre o saber inconsciente,
o saber teórico e o saber fazer?
Na verdade, o psicanalista está sempre se deparando com
o cerne da psicanálise, ou seja, a sua dimensão da
falta, esse descentramento do homem que não é dono
do seu destino, nem sequer da sua palavra. A psicanálise
dirige a sua atenção para uma coisa inteiramente diferente,
ela se volta para o fato de que, a partir do significante, o sujeito
pode criar o nada, e é, a partir do momento em que cria em
si mesmo o nada que o sujeito tomará seu prumo. Há,
então, a possibilidade de fazer uma escrita, uma inscrição
de um significante novo que marca a ausência de significante
no Outro, S(A/). O Outro, inconsciente, é barrado, ou seja,
algo do saber está definitivamente perdido sobre a barra
do recalcamento primário.
O paradoxo da existência da psicanálise reside no
fato de que o sujeito, enquanto sujeito do inconsciente, é
constituído como uma questão cuja própria estrutura
se define por não ter uma resposta pronta, acabada. Lembrando
o texto “ A analise é leiga” podemos dizer que
os psicanalistas são detentores de um saber leigo, marcado
por um não saber. Mas é por essa não resposta,
por esse não saber, que muitos movimentos vão no sentido
de renegar a existência subjetiva para que esta questão
do impossível desapareça.
Sabemos que não há um conceito, uma essência
de analista, mas há algo, o desejo do analista, que sustenta
a psicanálise, e cabe às instituições
psicanalíticas abrir espaço para fazer dessa impossibilidade
suas questões.
As sociedades psicanalíticas têm sido um espaço
onde a formação teórico-clínica é
sistematizada. Porém a análise pessoal, experiência
fundamental para se tornar um analista, não pode ser disciplinada
ou normatizada. Não há como fiscalizar algo que é
de caráter subjetivo e particular a cada um.
É interessante destacar, ainda, como que, a partir da ameaça
do projeto de regulamentação, as instituições
psicanalíticas se reconheceram. Sabemos que não há
um significante estável para reunir os que operam no campo
da psicanálise, não tem como coletivizar porque os
caminhos são particulares. O caminho mais fácil seria
o de reunir todos em torno de um significante ideal, o caminho da
psicologia das massas, caminho mais fácil, mas obturador
da possibilidade de inventar e do desejo.
O desafio que se coloca aos analistas, hoje, é sustentar
a tensão entre esses dois discursos, o do sujeito do inconsciente
e o discurso comum penso que esta é a sua ética.
É uma questão ética porque não se trata
de uma questão técnica, implica num trabalho cuidadoso
de como podemos reconhecer um psicanalista na sua singularidade
e diferença.
E, fazendo valer o desejo de analista, devemos manter nossas discussões
sobre as propostas de regulamentação da profissão
de psicanalista. É importante sustentar esse espaço
de discussão para que algo novo possa surgir, onde cada um
e cada sociedade possam se apresentar. O “novo” no sentido
de um significante novo que marca uma relação diferente
do sujeito com a falta. É necessário um trabalho e
certa insistência no desejo para que possamos levar adiante
a causa analítica.
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