|
Início
> Textos
> O que regula a psicanálise? - Paula Justo (Aleph)
O que regula a psicanálise?
Paula Justo (Aleph)
(publicado na Revista da Escola Letra Freudiana,
Ano XXII, n.32, mai/2003)
A Psicanálise é uma função que faz
operar o inconsciente.
Esse campo foi delimitado por Freud e institui o saber inconsciente
como seu fundamento primordial, estabelecendo definitivamente as
coordenadas que o definem: o inconsciente, o recalque, a transferência
e a pulsão.
No começo da Psicanálise está o desejo de
analista, o desejo de Freud ao inventar a Psicanálise. Não
se trata do desejo de “ser” psicanalista, mas do desejo
de analista que faz avançar a Psicanálise em suas
duas dimensões indissociáveis: investigação
e terapêutica.
O trabalho do psicanalista se norteia conforme estes conceitos
fundamentais, inconsciente, recalque, transferência e pulsão,
cernidos pelo postulado freudiano “Wo es war, soll Ich werden”,
que aponta a direção do desejo de analista. O desejo
de “ser” psicanalista estaria na contramão deste
postulado, no caminho da idealização.
Gostaria de ler aqui uma página de Freud, uma escuta freudiana
que nos traz o frescor do desejo de analista “a 2000 metros”.
Se fôssemos expressar a descoberta freudiana numa palavra,
esta seria certamente inconsciente. Apesar de sua
vocação de incomunicabilidade, o inconsciente não
está escondido numa espessura qualquer. Ele torna-se abordável
graças ao caráter de superfície da letra, esvaziada
de sentido. O acosso da descoberta do inconsciente está presente
em toda a obra de Freud. De seu texto específico sobre o
tema, podemos extrair: “Nossa suposição a respeito
do inconsciente é necessária e legítima e dispomos
de inúmeras provas de sua existência: os sonhos e as
parapraxias das pessoas saudáveis, os sintomas neuróticos
e a sugestão pós-hipnótica”. “Temos
motivos suficientes para supor que existe um recalque
originário que consiste em negar entrada no consciente ao
representante psíquico da pulsão. Igualmente importante
é a atração exercida por aquilo que foi originariamente
repelido sobre tudo que tem com isso uma ligação.”
Um outro conceito básico que é indispensável
na Psicanálise é o de pulsão.
A concepção freudiana da pulsão conduz a uma
explosão da noção clássica de instinto.
Pulsão, conceito-limite entre o somático e o psíquico,
representante psíquico das forças orgânicas.
A pulsão está presente no inconsciente somente pelos
seus representantes.
Quanto ao fenômeno da transferência
em Psicanálise, Freud nos deixa como um legado, em duas expressões
latinas, a permanência desta como enigma: “porque é
preciso se lembrar que ninguém pode ser morto “ïn
absentia”ou “in effigie”.
Colocando-nos diante desta questão, a regulação
da Psicanálise, encontramos no texto freudiano “A Questão
da Análise Leiga” as principais diretrizes para nosso
posicionamento. Trata-se de um texto amplo, que provém palavra
por palavra de artigos anteriores sobre a teoria e a prática
psicanalíticas, e também espantosamente atual, ainda
que de 1926.
Neste texto de Freud encontramos um de seus relatos mais instigantes
sobre os principais conceitos psicanalíticos, pois está
na forma de um diálogo estabelecido entre ele próprio
e um suposto opositor a que ele nomeia Pessoa Imparcial e que, segundo
Jones teria sido calcado sobre um alto funcionário com que
Freud teria discutido a defesa que propôs para Theodor Reik,
acusado de “charlatanismo” conforme a lei austríaca
da época.
A formação dos analistas, que se diferencia radicalmente
da preparação acadêmica, está colocada
neste texto de forma contundente e irredutível. A Psicanálise
é um procedimento sui generis, nos diz Freud, e
“leigo em Psicanálise é todo aquele que independentemente
de seu diploma, carece de formação adequada”.
Esta “formação adequada” está colocada
principalmente como o preparo para trabalhar com o material inconsciente.
As condições imprescindíveis na formação
dos analistas delimitam-se em duas: a “formação
adequada” e a “experiência analítica do
próprio analista”.
Ainda neste texto, mais precisamente no Pós-escrito (1927),
Freud recusa enfaticamente a redução da Psicanálise
à condição de simples método terapêutico:
“Na Psicanálise tem existido desde o início
um laço inseparável entre cura e pesquisa”.
Podemos concluir, portanto, que não haveria qualquer fundamento
para a regulamentação de alguma coisa que corresponda
à Psicanálise clínica, como já se pretendeu.
E configura-se também a impropriedade de qualquer regulamentação
da Psicanálise, desde que os parâmetros que definem
o preparo neste campo não se coadunam com aqueles da formação
acadêmica clássica.
E, lembramos da afirmação de Lacan, que sempre foi
radicalmente freudiano: “o ensino da Psicanálise pode
ser transmitido de um sujeito a outro através de uma transferência
de trabalho”, sendo isto o que se espera de uma Escola de
Psicanálise.
Proposta Final
Considerando os fundamentos da Psicanálise, pensamos que
o movimento psicanalítico deve manter-se vivo e atuante,
tanto entre as instituições como em direção
à sociedade, exatamente como começou, contra qualquer
regulamentação ou regulação da Psicanálise.
Esta seria uma posição ética, pois qualquer
legalização da Psicanálise como profissão
viria cercear o exercício da mesma enquanto função
que faz operar o inconsciente, seu pressuposto primordial. São
as leis que regem o inconsciente que importam à formação
dos analistas. Uma legalização que se proponha proteger
o “ser” do analista viria impedir exatamente a sua função
de psicanalista que faz operar o saber do inconsciente a partir
do desejo de analista.
|