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O que regula a psicanálise?
Marco Antonio Coutinho Jorge [1]
Agradeço, em primeiro lugar, o convite da Letra Freudiana
para minha participação nessa mesa, cujo tema tem
reunido várias instituições psicanalíticas
brasileiras aqui no Rio de Janeiro periodicamente.
O que regula a psicanálise?
Analiso, em primeiro lugar, essa pergunta que foi colocada para
a mesa. Ela é uma pergunta muito precisa, mas que apresenta
várias dimensões possíveis e exige que nos
perguntemos sobre o que ela de fato questiona, uma vez que podemos
ver uma série de perguntas embutidas dentro dela.
Como o Nestor Vaz mencionou ao abrir os trabalhos, regular,
segundo o Dicionário Houaiss, se origina do latim regula,
régua, reta e simples, e significa em suas três primeiras
acepções: 1. estabelecer regras para; 2.
sujeitar a regras, dirigir, regrar;
3. dirigir em conformidade com as regras estabelecidas.
Em primeiro lugar, a pergunta assim colocada inclui necessariamente,
ainda que não o explicite, a dimensão sobre o que
regula a prática da psicanálise. Se a considerarmos
por essa acepção, pensaremos evidentemente na
regra da associação livre. Freud afirmou inúmeras
vezes que a psicanálise, em sua prática, só
tem uma única regra a regulá-la, a associação
livre, a qual o analisando é convidado a exercer o mais plenamente
possível e que tem seu correlato na atenção
flutuante com a qual o analista acompanha este exercício.
A liberdade do dizer do analisando é o que permitirá,
paradoxalmente, revelar a sobre-determinação inconsciente
à qual ele está sujeito e preso de modo radical.
A pergunta inclui outra dimensão possível, sobre
quem ou o quê regulamenta a psicanálise. Nesse
caso, estamos diante de uma questão que toca no problema
atual da tentativa de regulamentação da profissão
do psicanalista por parte de indivíduos inescrupulosos que
se permitem associar, com muita facilidade, psicanálise e
religião. Reuniões das diferentes instituições
psicanalíticas têm sido realizadas periodicamente aqui
no Rio de Janeiro no intuito de favorecer a ação unida
dos psicanalistas contra tal iniciativa.
Essa dimensão da questão exige de nós, psicanalistas,
que afirmemos, com Freud, o caráter leigo da psicanálise,
isto é, o fato de que seu discurso é absolutamente
singular e não pode ser adscrito ao de qualquer outra disciplina,
seja ela médica ou mesmo psicológica. Na época
de Freud – estou retomando várias coisas que já
foram ditas, mas talvez isso seja necessário –, o caráter
leigo da psicanálise foi situado especificamente em relação
à prática médica, sobretudo devido às
tentativas dos médicos de monopolizarem-na. O ensino de Lacan
teve como um de seus principais efeitos essa desmedicalização
da psicanálise e o relevo dado a seu caráter leigo.
Mas hoje, a psicologia parece ocupar junto à psicanálise
o mesmo lugar que a medicina ocupou outrora e os psicanalistas são
exigidos, no dia-a-dia de suas atividades – de estudo, ensino
e transmissão –, no sentido de retificar essa pertença
da psicanálise a um campo que evidentemente não é
o seu.
Talvez o sentido mais amplo e, ao mesmo tempo, preciso, dessa questão
resida na indagação sobre os próprios fundamentos
da psicanálise enquanto disciplina e, portanto, da ética
que lhe é inerente.
A propósito dessa questão, ocorreu-me relatar algumas
informações obtidas nas trocas efetuadas num cartel
sobre a formação do analista, do qual eu e Denise
Maurano participamos – enquanto membros do Corpo Freudiano
do Rio de Janeiro –, juntamente com psicanalistas da França,
da Argentina, da Itália e dos EUA, no quadro de atividades
da Convergência, Movimento Lacaniano para a Psicanálise
Freudiana.
Em primeiro lugar, a situação da psicanálise
na Itália, hoje, é extremamente problemática,
segundo o depoimento dos psicanalistas italianos com quem trabalhamos,
Sergio Contardi, de Milão, e Gabriella Ripa di Meana, de
Roma. Pois há bastante tempo, para ser mais preciso há
exatos onze anos, vigora uma lei na Itália que obriga os
psicanalistas, para exercerem sua atividade, a serem membros de
uma instituição psicanalítica que se inscreva
no rol das instituições psicanalíticas aprovadas
pelo estado para oferecerem sua formação. E o que
o estado exige dessas instituições é que elas
tenham uma inscrição formal enquanto sociedades de
psicoterapia. A única instituição
que não se inscreveu nesse rol se chama Noddi Freudiani,
da qual participam os colegas mencionados, duplamente sediada em
Milão e Roma, e que se recusa a inscrever a prática
da psicanálise no âmbito da psicoterapia. Evidentemente
que a sustentação dessa posição compatível
com a ética psicanalítica produz conseqüências
graves para os membros de Noddi Freudiani, uma vez que sua prática
– clínica, de formação e de transmissão
–, se dá de forma inteiramente marginal, segundo a
lei estatal.
Já nos Estados Unidos, algo diferente vem ocorrendo, algo
que remete a uma outra dimensão ainda da questão colocada,
a da formação do analista que, aliás, é
o tema desse encontro. O que surpreende é que nesse país,
conforma nos relatou Paola Mieli, psicanalista que dirige a Après-Coup
Psychoanalytic Association em Nova Iorque, foi criado um organismo
intitulado Psychoanalytic Consortium, composto de quatro organizações-membro,
a American Academy of Psychoanalysis, a American Psychoanalytic
Association, o National Membership Committee on Psychoanalysis in
Clinical Social Work e a Division of Psychoanalysis. Trata-se de
um consórcio formado por quatro grandes associações
norte-americanas, que se reuniram em 1999 com o objetivo de estabelecer
um protocolo que definisse os elementos em jogo na formação
de um analista. Esse Consortium acabou de ratificar, em maio de
2001, o que eles denominam de os “Standards of Psychoanalytic
Education”, ou seja, os padrões da formação
do psicanalista. Paola Mieli escreveu um texto no qual faz uma crítica
do protocolo sustentado pelo consórcio e o enviou para essas
sociedades. [2]
Como Mieli sublinha, esses standards surpreendem, de fato,
porque apresentam inúmeros pontos que nós consideramos
como absolutamente anti-psicanalíticos. Por exemplo, a definição
dada pelo Consortium sobre o que é a psicanálise é
a seguinte: “Psicanálise é uma forma específica
de psicoterapia individual que objetiva trazer os elementos e processos
mentais inconscientes com o objetivo de expandir o self
individual, a auto-compreensão, produzindo adaptação
em múltiplas esferas de funcionamento, aliviando sintomas
de distúrbios mentais e facilitando mudanças de caráter
e crescimento emocional”. Além dessa definição
que não é necessário comentar mais longamente
– uma vez que emprega termos (psicoterapia, adaptação,
distúrbios mentais, crescimento emocional etc) que são
passíveis de serem objeto de uma crítica severa de
nossa parte –, o Consortium estabelece padrões sobre
a formação que revelam um desconhecimento profundo
da complexidade em jogo na formação de um analista,
aquilo que Lacan chamou, na Proposição de 9 de
outubro de 1967, de “um real em jogo na formação
do psicanalista” e sobre o qual Sonia Alberti se deteve há
pouco em sua intervenção. O protocolo do Consortium
estabelece, por exemplo, a freqüência de pelo menos três
sessões por semana como uma garantia de “profundidade”
e de “intensidade” da formação psicanalítica,
como se a simples freqüência de sessões fosse
suficiente para obter o efeito de formação almejado.
Outro exemplo que revela os impasses a que leva o documento elaborado
pelo Consortium: nele, é dada uma primazia enorme à
seleção dos candidatos que querem fazer formação,
no sentido de avaliar, antecipadamente, as condições
do candidato para ser psicanalista. Vemos que os parâmetros,
aqui, chegam a ser bastante curiosos, pois eles supõem uma
normalidade prévia à análise que é considerada
como condição necessária para alguém
se tornar analista. Na verdade, eles constituem uma aposta contra
a própria psicanálise, pois formulam, implicitamente,
que a análise não irá produzir grandes mudanças
no sujeito. Nós, que trabalhamos na referência ao ensino
de Freud e de Lacan, sabemos o quanto isso nada tem a ver com a
experiência analítica, pois sabemos o quanto, muitas
vezes, as análises de sujeitos extremamente conflituados
são análises que vão muito fundo e produzem
analistas dignos desse nome.
Gostaria de finalizar observando que, quanto à formação
do analista, Lacan, contrariamente ao que se poderia pensar, não
rompeu com o chamado tripé clássico da formação
analítica. [3] Na verdade, o que ele fez foi introduzir questionamentos
incessantes e bastante radicais nos diferentes aspectos desse tripé
clássico.
No primeiro e mais essencial ponto, a análise pessoal, Lacan
propôs o passe como um dispositivo de investigação
sobre a questão do fim da análise, questão
fundamental que havia sido deixada de lado pelos analistas. A questão
colocada pelo passe é correlata à observação
lacaniana de que a análise se revela didática só-depois,
contrariamente ao que afirma o Consortium. Toda análise é
didática para Lacan, caso seja levada até o seu fim.
Quanto ao estudo teórico, segundo ponto do tripé,
Lacan introduziu algumas inovações: o dispositivo
do cartel, no qual o objetivo da produção singular
de cada participante curto-circuita os objetivos imaginários
do grupo, e o seminário, no qual o analista sustenta um ensino
proferido no lugar de analisando. Lacan abre o Seminário
20 dizendo que está ali na posição de
analisando, o que nos faz deduzir que o analista quando ensina não
está na posição de analista nem de mestre.
A concepção do matema é igualmente algo novo
que foi introduzido por Lacan numa referência direta à
questão da transmissibilidade da psicanálise.
E o que o psicanalista submete à análise em seu ensino?
Nesse ponto, eu venho desenvolvendo a questão sobre o que
chamo de travessia da teoria. A travessia da teoria é algo
correlato àquilo que, na experiência do fim da análise,
Lacan concebe como sendo a travessia da fantasia. Pois
a teoria tem, igualmente, o estatuto de uma fantasia – Freud
fala disso numa breve passagem, da teoria como fantasia –,
e sua travessia certamente diz respeito ao aspecto interminável
da análise de um analista. É desse modo que podemos
dar ao “retorno a Freud” de Lacan todo o seu relevo,
o de tomar o texto de Freud e de atravessar as fantasias inerentes
àquele texto.
Para finalizar, o terceiro aspecto do tripé é a questão
da supervisão. Durante muito tempo, talvez ainda hoje, ouvíamos
algumas pessoas dizerem: “Lacan é contra a supervisão”,
“lacanianos não dão supervisão”.
Isso, evidentemente, não é verdade. Lacan sempre deu
supervisão, mas introduziu uma coisa nova dentro da escola
que ele dirigia. O novo de Lacan em relação à
supervisão foi muito simples: ele suspendeu a obrigatoriedade
da supervisão, dando chance para o sujeito de que ele pudesse
buscar supervisão no momento em que tivesse necessidade dela
e não seguisse simplesmente um protocolo estabelecido previamente
que dizia qual era o momento para isso ocorrer. Uma supervisão
buscada a partir da necessidade imposta pela experiência clínica
é uma coisa, e buscada pela obrigatoriedade decorrente de
um protocolo rígido, é uma coisa muito diferente.
Concluo ressaltando que as inovações introduzidas
por Lacan nas concepções do tripé clássico
foram, todas – contrariamente ao que muitas vezes se ouve
falar – no sentido de trazer um maior rigor para a formação
do analista, atravessando-a com uma pluralidade de problemas que,
de tão graves, não podem ser desconhecidos, sob o
risco de se perder o gume cortante da experiência analítica.
Quanto a essa questão atual dos evangélicos que tentam
se apoderar da psicanálise de modo inteiramente ilegítimo,
eu creio que nós, analistas, poderíamos estudar esse
fenômeno e utilizar, para isso, antes de mais nada, o nosso
discurso que é de fato aquilo que temos de melhor para tentar
compreender o mundo a nossa volta.
Era isso o que eu tinha para dizer.
Notas:
1) Psiquiatra, psicanalista, Membro
do Corpo Freudiano Seção Rio de Janeiro, Membro da
Association Insistance (Paris-Bruxelles), Professor-adjunto do Instituto
de Psicologia da UERJ, autor de Fundamentos da psicanálise
de Freud a Lacan – v.1: as bases conceituais (Rio de Janeiro,
Jorge Zahar, 2000) e organizador de Lacan e a formação
do psicanalista (Rio de Janeiro, Contra Capa, 2006).
2) A tradução desse
texto, intitulado Questions raised by the Report of the Psychoanalytic
Consortium on Analytical Training, será publicada em breve
na coletânea que estou organizando, intitulada Lacan e a formação
do psicanalista (Rio de Janeiro, Contra Capa, 2006).
3) Tal observação
é o objeto de uma investigação aprofundada
em meu artigo Lacan e a estrutura da formação psicanalítica,
a ser publicado na coletânea mencionada acima.
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