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análise leiga
A Questão da Análise
Leiga:
conversações com uma pessoa imparcial
(Sigmund Freud, 1926 – Ed. Standart, vol. XX)
Introdução
O
título deste pequeno trabalho não é de pronto
inteligível. Portanto, eu o explicarei. ‘Leigo’
= ‘Não-médico’; e a questão é
se os não-médicos bem como os médicos devem
ter permissão para praticar a análise. Essa questão
tem suas limitações tanto no tempo como no espaço.
No tempo, porque até agora ninguém se preocupou com
quem pratica a análise. Na realidade, as pessoas se têm
preocupado pouquíssimo com isto – a única coisa
com a qual estavam concordes era o desejo de que ninguém
devia praticá-la. Várias razões foram dadas
para isto, mas se basearam na mesma falta de gosto fundamental.
Assim, a exigência de que somente médicos devem analisar
corresponde a uma atitude nova e aparentemente mais amistosa em
relação à análise – se, isto é,
ela puder escapar à desconfiança de ser, afinal de
contas, apenas um derivado ligeiramente modificado da atitude mais
antiga. Admite-se que em certas circunstâncias um tratamento
analítico seja empreendido; mas, se for assim, somente os
médicos devem empreendê-lo. O motivo dessa restrição
torna-se assim um assunto de indagação.
A questão está limitada no espaço porque não
surge em todos os países com igual significado. Na Alemanha
e nos Estados Unidos isto não passaria de uma discussão
acadêmica, pois naqueles países qualquer paciente pode
submeter-se a tratamento e por quem ele escolher, e qualquer um
que ele escolha pode, como um ‘charlatão’, lidar
com quaisquer pacientes, contanto somente que ele assuma a responsabilidade
de suas ações. A lei não intervém até
que seja chamada a sanar algum dano causado ao paciente. Mas na
Áustria, na qual e para a qual escrevo, existe uma lei preventiva,
que proíbe aos não-médicos empreenderem o tratamento
de pacientes, sem aguardar o seu resultado. Dessa forma, aqui a
questão de se leigos (= não-médicos) podem
tratar pacientes pela psicanálise tem um sentido prático.
Logo que é levantada, contudo, parece ser solucionada pela
letra da lei. Os neuróticos são pacientes, os leigos
são não-médicos, a psicanálise é
um método paramétodo para curar ou melhorar as perturbações
nervosas, e todos esses tratamentos ficam reservados a médicos.
Depreende-se que não se permite aos leigos praticar a análise
em neuróticos, sendo puníveis se não obstante
agirem dessa maneira. Sendo a posição tão simples,
dificilmente alguém se aventura a chamar a si a questão
da análise leiga. Ainda assim, há certas complicações,
com as quais a lei não se preocupa, mas que não obstante
exigem consideração. Talvez venha a acontecer que
nesse caso os pacientes não sejam como outros, que os leigos
não sejam realmente leigos, e que os médicos não
tenham exatamente as mesmas qualidades que se teria o direito de
esperar deles e nos quais suas alegações devem basear-se.
Se isto puder ser provado, haverá fundamentos justificáveis
para exigir que a lei não seja aplicada sem modificação
ao caso perante nós.
I
Isto acontecer dependerá das pessoas que não são
obrigadas a estar familiarizadas com as peculiaridades de um tratamento
analítico. Constitui nossa tarefa dar informações
sobre o assunto a essas pessoas imparciais, que presumimos estejam,
no momento, ainda em ignorância. É de lamentar-se que
não possamos permitir-lhes a presença como auditório,
em um tratamento dessa espécie. Mas a ‘situação
analítica’ não permite a presença de
terceiros. Além disso, as diferentes sessões são
de valor muito desigual. Um ouvinte não autorizado que por
acaso presenciasse uma delas em geral não formaria qualquer
impressão útil; ele correria o perigo de não
compreender o que se estava passando entre o analista e o paciente,
ou ficaria enfadado. Por bem ou por mal, portanto, ele deve contentar-se
com nossas informações, que tentaremos tornar tão
dignas de confiança quanto possível.
Um paciente, então, pode estar sofrendo de flutuações
em seus estados de ânimo que ele pode controlar, ou de um
sentimento de desalento pelo qual sua energia se sente paralisada
porque pensa ser incapaz de fazer algo adequadamente, ou de um constrangimento
entre estranhos. Poderá perceber, sem compreender a razão
disso, que tem dificuldades em executar seu trabalho profissional,
ou na realidade qualquer decisão relativamente importante
ou qualquer empreendimento. Ele poderá um dia ter sofrido
de um ataque aflitivo – desconhecido em sua origem –
de sentimentos de ansiedade, e desde então tornou-se incapaz,
sem luta, de caminhar sozinho pela rua, ou de viajar de trem; talvez
tenha tido de desistir de ambos inteiramente. Ou, coisa bem marcante,
seus pensamentos poderão seguir seu próprio curso
e se recusarem a ser dirigidos pela vontade do paciente. Eles perseguem
problemas que lhes são inteiramente indiferentes, mas dos
quais não pode livrar-se. Tarefas bem ridículas lhe
são também impostas, tais como contar as janelas das
frentes das casas. E quando tiver realizado ações
simples como pôr uma carta no correio ou desligar um bico
de gás, ele se encontra, um momento depois, a duvidar se
realmente agiu assim. Isto poderá não ser mais do
que aborrecimento e uma amolação. Mas seu estado se
torna intolerável se súbito verificar ser incapaz
de desviar a idéia de que empurrou uma criança para
debaixo das rodas de um carro ou de que lançou um estranho
da ponte dentro d’água, ou se tem de perguntar a si
mesmo se não é o assassino que a polícia está
à procura em relação a um crime que foi descoberto
naquele dia. Isto é pura tolice, como ele próprio
sabe; jamais cometeu dano algum contra alguém, mas se fosse
realmente o assassino que está sendo procurado, seu sentimento
– seu sentimento de culpa – não poderia ser mais
forte. Ou ainda nosso paciente – e dessa vez vamos considerá-lo
como mulher – pode sofrer de outra forma e em campo diferente.
Ela é pianista, mas os dedos estão dominados pela
cãibra e se recusam a servi-la. Ou quando pensa em ir a uma
recepção ela de pronto se torna cônscia de um
apelo da natureza cuja satisfação seria incompatível
com uma reunião social. Ela desistiu, portanto, de freqüentar
festas, bailes, teatros ou concertos. Ela se acha dominada por violentas
dores de cabeça ou outras sensações dolorosas
em ocasiões que são as mais inconvenientes. Poderá
até ser incapaz de sustentar no estômago qualquer refeição
que venha a ingerir – o que pode, em última análise,
tornar-se perigoso. E, finalmente, constitui um fato lamentável
que não possa tolerar quaisquer agitações,
que afinal de contas são inevitáveis na vida. Em tais
ocasiões ela sofre um desmaio, muitas vezes acompanhado por
espasmos musculares que recordam estados patológicos sinistros.
Outros pacientes, além disso, sofrem de perturbações
num campo específico no qual a vida emocional converge com
exigências de natureza corpórea. Se são homens,
verificam ser incapazes de dar expressão física aos
seus sentimentos mais ternos para com o sexo oposto, enquanto em
relação aos objetos menos amados talvez possam ter
todas as reações sob seu domínio. Ou seus sentimentos
sensuais ligam-nos a pessoas que desprezam e das quais gostariam
de livrar-se; ou esses mesmos sentimentos impõem exigências
a eles cuja realização eles próprios acham
repulsiva. Se são mulheres, sentem-se impedidas pela ansiedade
ou repulsa ou por obstruções desconhecidas quanto
ao atendimento das exigências da vida sexual; ou, se se entregaram
ao amor, constatam ter-lhes sido negada a fruição
que a natureza proporcionou como recompensa por tal atendimento.
Todas essas pessoas reconhecem estar doentes e recorrem a médicos,
por meio dos quais as pessoas esperam que perturbações
nervosas como essas sejam eliminadas. Os médicos também
formulam as categorias nas quais se acham divididos esses males.
Eles os diagnosticam, cada um de acordo com seu próprio ponto
de vista, sob nomes diferentes: neurastenia, psicastenia, fobias,
neurose obsessiva, histeria. Examinam os órgãos que
produzem os sintomas, o coração, o estômago,
os intestinos, a genitália, e concluem que estão sãos.
Recomendam interrupções no modo de vida habitual do
paciente, exercícios de fortalecimento, tônicos, e
por esses meios ocasionam melhorias habituais – ou absolutamente
nenhum resultado. Eventualmente, os pacientes vêm a saber
que há pessoas interessadas de modo bem especial no tratamento
de tais males e iniciam com elas uma análise.
Durante essa indagação sobre os sintomas dos neuróticos,
a Pessoa Imparcial, que imagino estar presente, vem mostrando sinais
de impaciência. Nesse ponto, contudo, ela se torna atenta
e interessada. ‘Então agora’, diz ela ‘saberemos
o que o analista faz com o paciente a quem o médico foi incapaz
de ajudar’.
Nada acontece entre eles, salvo que conversam entre si. O analista
não faz uso de qualquer instrumento – nem mesmo para
examinar o paciente – nem receita quaisquer remédios.
Se mesmo for possível, deixa até o paciente em seu
ambiente e no seu modo de vida habitual durante o tratamento. Essa
não é uma condição necessária,
naturalmente, e talvez nem sempre seja praticável. O analista
concorda em fixar um horário com o paciente, faz com que
ele fale, ouve o que ele diz, por sua vez conversa com ele e faz
com que ele ouça.
As feições da Pessoa Imparcial agora revelam sinais
de alívio e relaxamento inegáveis, mas também
traem claramente certo desprezo. É como se ela estivesse
pensando: ‘Nada mais do que isto? Palavras, palavras, palavras,
como diz o príncipe Hamlet.’ E sem dúvida ela
também está pensando na fala zombeteira de Mefistófeles
sobre com que conforto se pode ir passando com palavras –
versos que nenhum alemão jamais esquecerá.
‘Assim é uma espécie de mágica’,
comenta ela: ‘O senhor fala e dissipa seus males.’
Isto mesmo. Seria mágica se surtisse efeito um pouco mais
rapidamente. Um atributo essencial de um mágico é
a rapidez – poder-se-ia dizer a subitaneidade – do sucesso.
Mas os tratamentos analíticos levam meses e mesmo anos: mágica
tão lenta perde seu caráter miraculoso. E incidentalmente
não desprezemos a palavra. Afinal de contas, ela é
um instrumento poderoso; é o meio pelo qual transmitimos
nossos sentimentos a outros, nosso método de influenciar
outras pessoas. As palavras podem fazer um bem indizível
e causar terríveis feridas. Sem dúvida ‘no começo
foi a ação’ e a palavra veio depois; em certas
circunstâncias ela significou um progresso da civilização
quando os atos foram amaciados em palavras. Mas originalmente a
palavra foi magia – um ato mágico; e conservou muito
de seu antigo poder.
A Pessoa Imparcial continua: ‘Suponhamos que o paciente não
esteja mais bem preparado para compreender o tratamento analítico
do que eu; então como o senhor vai fazê-lo acreditar
na magia da palavra ou da fala que deve libertá-lo de seus
sofrimentos?’Algum preparo deve naturalmente ser-lhe proporcionado,
havendo uma maneira simples de fazê-lo. Convidá-lo
a ser inteiramente sincero com o seu analista, nada refrear intencionalmente
que lhe venha à cabeça, e portanto pôr de lado
toda reserva que o possa impedir de informar sobre certos pensamentos
ou lembranças. Cada um está cônscio de que existem
certas coisas em si que não estaria absolutamente disposto
a contar a outras pessoas ou que consideraria inteiramente fora
de cogitação revelar. São elas suas ‘intimidades’.
Essa pessoa também não tem qualquer idéia –
e isto representa um grande progresso no autoconhecimento psicológico
– de que há outras coisas que alguém não
se importaria de admitir para consigo: coisas que alguém
gosta de ocultar de si próprio e que por esse motivo interrompe
e expulsa de seus pensamentos se, apesar de tudo, vierem à
tona. Talvez ela própria observe que um problema psicológico
muito marcante começa a aparecer nessa situação
– um pensamento seu sendo mantido em segredo para seu próprio
eu (self). É como se seu próprio eu (self) não
fosse mais a unidade que ela sempre considerou que fosse, como se
houvesse algo mais também nela que pudesse enfrentar esse
eu (self). Ela pode tornar-se obscuramente cônscia de um contraste
entre um eu (self) e uma vida mental no sentido mais lato. Se agora
ela aceita a exigência feita pela análise de que dirá
tudo, facilmente se tornará acessível a uma expectativa
de que ter relações e trocas de pensamento com alguém
sob condições inusitadas talvez possa também
levar a resultados inusitados.
‘Compreendo’, diz nossa Pessoa Imparcial. ‘O
senhor presume que todo neurótico tem algo que o oprime,
algum segredo. E fazendo-o contar-lhe a respeito disto o senhor
alivia sua opressão e lhe faz bem. Isto, naturalmente, é
o princípio da confusão, que a Igreja Católica
utiliza desde tempos imemoriais a fim de assegurar seu domínio
sobre as mentes das pessoas.’
Devemos responder: ‘Sim e não!’ A confissão
sem dúvida desempenha seu papel na análise como uma
introdução a ela, poderíamos dizer. Mas está
muito longe de constituir a essência da análise ou
de explicar-lhe os efeitos. Na confissão o pecador conta
o que sabe; na análise o neurótico tem mais a dizer.
Nem ouvimos falar que confissão tenha desenvolvido força
suficiente para eliminar sintomas patológicos reais.
‘Então, afinal de contas, eu não compreendo’,
retruca nosso interlocutor. ‘O que possivelmente o senhor
quer dizer por “dizendo mais do que ele sabe”? Mas posso
muito bem acreditar que como analista o senhor consegue uma influência
mais acentuada sobre seus pacientes do que um padre confessor sobre
seus penitentes, visto que os contatos do senhor com ele são
muito mais longos, mais intensos e também mais individuais,
e visto que osenhor emprega essa maior influência para desviá-lo
de seus pensamentos doentios, para que, pela conversa, ele se livre
de seus temores, e assim por diante. Por certo seria estranho se
fosse possível por tais meios controlar também fenômenos
puramente mecânicos, tais como vômitos, diarréia
e convulsões; mas sei que uma influência como esta
é de fato bem possível se uma pessoa for levada a
um estado de hipnose. Pelo trabalho que o senhor tem com o paciente
provavelmente consegue provocar uma relação hipnótica
dessa natureza com ele – uma ligação sugestiva
com o senhor mesmo – muito embora o senhor talvez tenha essa
intenção; e nesse caso os resultados miraculosos do
seu tratamento são o efeito de sugestão hipnótica.
Mas, que eu saiba, o tratamento hipnótico atua com muito
maior rapidez do que a sua análise, a qual, conforme me diz,
dura meses e anos.’
Nossa Pessoa Imparcial não pode nem ser tão ignorante
nem tão perplexa como de início pensamos. Há
sinais inegáveis de que ela está tentando compreender
a psicanálise com a ajuda do seu conhecimento anterior, de
que está tentando ligá-la com algo que já conhece.
Encontra-se agora diante de nós a difícil tarefa de
tornar-lhe claro que ela não será bem-sucedida nisto:
que a análise é um procedimento sui generis, algo
novo e especial, que só pode ser compreendida com o auxílio
de novas compreensões internas (insights) – ou hipóteses,
se isto soar melhor. Mas ela ainda está aguardando nossas
respostas a suas últimas observações.
O que se diz sobre a influência pessoal do analista certamente
merece grande atenção. Uma influência existe
e desempenha relevante papel na análise – mas não
o mesmo papel que no hipnotismo. Deve ser possível convencê-lo
de que as situações nos dois casos são bem
diferentes. Talvez seja bastante ressaltar que não devemos
utilizar essa influência pessoal, o fator de ‘sugestão’,
para suprimir os sintomas da doença, como ocorre com a sugestão
hipnótica. Ademais, seria um erro crer que esse fator é
o veículo e promotor do tratamento em toda sua extensão.
No seu início, sem dúvida. Mas depois ele se opõe
às nossas intenções analíticas e nos
força a adotar as contramedidas mais exageradas. E eu gostaria
de mostrar por um exemplo quão longe estão da técnica
da análise o desviar os pensamentos de um paciente e pela
conversa afastá-lo dos problemas. Se um paciente nosso estiver
sofrendo de um sentimento de culpa, como se ele houvesse perpetrado
um crime grave, não recomendamos que ele despreze seus escrúpulos
de consciência e não frise sua reconhecida inocência;
ele próprio muitas vezes tentou fazê-lo sem êxito.
O que fazemos é recordar-lhe que um sentimento tão
forte e persistente deve, afinal de contas, estar baseado em algo
real, que talvez possa ser possível descobrir.{#V20_P186}
‘Surpreender-me-ia’, comenta a Pessoa Imparcial, ‘se
o senhor fosse capaz de aliviar seus pacientes concordando com o
sentimento de culpa deles dessa maneira. Mas quais são suas
intenções analíticas? e que faz o senhor com
seus pacientes?’
II
Se devo dizer algo de inteligível ao leitor, sem dúvida
terei de dizer-lhe alguma coisa sobre uma teoria psicológica
que não é conhecida ou que não é apreciada
fora dos círculos analíticos. Será fácil
deduzir dessa teoria o que desejamos de nossos pacientes e como
obtê-lo. Eu lhe exporei isto dogmaticamente, como se fosse
uma estrutura teórica completa. Mas não suponha ele
que ela surgiu como essa estrutura, como um sistema filosófico.
Nós a desenvolvemos lentamente, lutando com todos os pequenos
detalhes da mesma, temo-la modificado sem cessar, mantendo um contato
contínuo com a observação, até que ela
finalmente adquiriu uma forma na qual parece ser suficiente para
nossas finalidades. Apenas há poucos anos tive de revestir
essa teoria em outros termos. Nem, naturalmente, posso garantir-lhe
que a forma como ela é expressa hoje continue a ser defendida.
A ciência, como se sabe, não é uma revelação;
muito depois dos seus primórdios ainda lhe faltam os atributos
de determinação, imutabilidade e infalibilidade pelos
quais o pensamento humano tão profundamente anseia. Mas tal
como ela é, é tudo que podemos ter. Se quiser ainda
ter em mente que a nossa ciência é muito jovem, não
chegando quase a ser tão velha quanto o século, e
que ela se interessa pelo que seja talvez o material mais difícil
que possa ser o assunto de pesquisa humana, facilmente será
capaz de adotar a atitude correta no tocante à minha exposição.
Mas interrompa-me sempre que se sentir inclinado, se não
puder seguir-me ou se desejar outras explicações.
'Eu o interrompi antes mesmo de haver começado. O senhor
diz que pretende expor-me uma nova psicologia: mas devo ter pensado
que a psicologia não era nenhuma nova ciência. Tem
havido bastantes psicologias e psicólogos, e ouvi falar em
grandes realizações nesse campo quando estava na faculdade.’
Não devo nem sonhar em discuti-las. Mas se o senhor examinar
o assunto mais detidamente terá de classificar essas grandes
realizações como pertencendo antes à fisiologia
dos órgãos dos sentidos. A teoria da vida mental não
poderia ser desenvolvida, porque estava inibida por uma única
incompreensão essencial. O que ela abrange hoje, como é
ensinada na faculdade? Independente dessas valiosas descobertas
na fisiologia dos sentidos, grande número de classificações
e definições de nossos processos mentais que, graças
ao uso lingüístico, se tornou o patrimônio comum
de toda pessoa educada. Isto não era suficiente para dar
uma visão de nossa vida mental. O senhor não observou
que todo filósofo, todo escritor de imaginação,
todo historiador e todo biógrafo compõem sua própria
psicologia para si, formulam suas próprias hipóteses
específicas concernentes às interligações
e finalidades dos atos mentais – tudo mais ou menos plausível
e tudo igualmente indigno de confiança? Existe evidente falta
de qualquer fundamento comum. E é por esse motivo também
que no campo da psicologia não há, por assim dizer,
qualquer respeito e qualquer autoridade, Nesse campo cada um pode
‘correr sem governo’ conforme lhe aprouver. Se o senhor
levantar uma questão de física ou de química,
qualquer pessoa sabedora de que não possui ‘conhecimento
técnico’ algum calará a boca. Mas se o senhor
aventurar-se numa asserção psicológica, deve
estar preparado para fazer face a julgamento e contradição
de todos os setores. Nesse campo, aparentemente, não existe
‘conhecimento técnico’ algum. Mas isto me surpreende
como um título legal inadequado. Conta-se a história
de uma pessoa a quem, ao candidatar-se a um emprego como ama de
crianças, foi feita a pergunta se sabia cuidar de bebês.
‘Naturalmente’, retrucou ela, ‘ora, afinal de
contas, eu própria já fui bebê.’
‘E o senhor alega que descobriu esse “fundamento comum”
da vida mental, que foi desprezado por todo psicólogo, a
partir de observações de pessoas doentes?’
A fonte dos nossos achados não me parece privá-los
do seu valor. A embriologia, para citar um exemplo, não mereceria
ser digna de fé se não pudesse dar uma explicação
clara da origem das deformações inatas. Já
lhe falei de pessoas cujos pensamentos seguem seu próprio
curso de modo que elas são obrigadas a preocupar-se com problemas
aos quais são inteiramente indiferentes. Você pensa
que a psicologia acadêmica jamais poderia prestar a menor
contribuição no sentido de explicar uma anormalidade
como essa? E, afinal de contas, todos temos a experiência,
à noite, de os nossos pensamentos seguirem o seu próprio
curso e criarem coisas que não compreendemos, que nos intrigam
e que são suspeitamente rememorativas de produtos patológicos.
Nossos sonhos, quero dizer. As pessoas comuns sempre têm firmemente
acreditado que os sonhos têm um sentido e um valor –
que significam alguma coisa. A psicologia acadêmica jamais
foi capaz de nos informar qual é esse significado. Ela nada
pode inferir dos sonhos. Se tentasse produzir explicações,
estas seriam não-psicológicas – como remontá-las
a estímulos sensoriais ou a uma profundidade desigual de
sono em diferentes partes do cérebro, e assim por diante.
Mas é justo dizer que uma psicologia que não pode
explicar os sonhos é também inútil para a compreensão
da vida mental normal, e que ela não pode reivindicar a denominação
de ciência.
‘O senhor está-se tornando agressivo; dessa forma
evidentemente atingiu um ponto sensível. Ouvi dizer, é
verdade, que na análise grande valor éatribuído
aos sonhos, que eles são interpretados etc. Mas também
soube que a interpretação dos sonhos é deixada
ao capricho dos analistas, e que eles próprios jamais deixariam
de discutir a maneira de interpretar os sonhos e a justificativa
para tirar conclusões dos mesmos. Se isto for assim, o senhor
não deve sublinhar de maneira tão acentuada a vantagem
que a análise conquistou sobre a psicologia acadêmica.’
Existe realmente grande dose de verdade no que o senhor diz. É
certo que a interpretação dos sonhos chegou a ter
importância incomparável tanto para a teoria como para
a prática da análise. Se pareço ser agressivo,
isto é apenas uma maneira de defender-me. E ao pensar em
todo o mal que alguns analistas têm causado com a interpretação
de sonhos, quase perco a coragem e repito o pronunciamento pessimista
do nosso grande satirista Nestroy, quando este diz que cada grande
passo à frente é apenas a metade do que parece ser
de início. Mas o senhor já verificou que os homens
fazem tudo para confundir e distorcer aquilo de que lançam
mão? Com a ajuda de um pouco de previsão e autodisciplina
a maior parte dos perigos da interpretação de sonhos
pode ser evitada com certeza. Mas o senhor há de concordar
que nunca chegarei à minha exposição se nos
deixarmos desviar dessa maneira.
‘Sim. Se bem compreendi, o senhor quis falar-me sobre o postulado
fundamental da nova psicologia.’
Não foi com isso que eu desejava começar. Minha finalidade
era deixá-lo ouvir falar sobre os quadros que formamos da
estrutura do aparelho mental no curso dos nossos estudos analíticos.
‘O que o senhor quer dizer pelo “aparelho mental”?
e de que, pergunto eu, é ele construído?’
Logo tornar-se-á claro o que é o aparelho mental;
mas peço-lhe que não me pergunte de que material é
ele construído. Isto não é assunto de interesse
psicológico. A psicologia pode ser tão indiferente
a ele como, por exemplo, a óptica pode ser para a questão
de se as paredes de um telescópio são feitas de metal
ou de papelão. Deixaremos inteiramente de lado a linha material
de abordagem, mas não a espacial, pois imaginamos o aparelho
desconhecido que serve às atividades da mente como sendo
realmente um instrumento de várias partes (que denominamos
de ‘instâncias’), cada uma das quais desempenha
uma função particular e tem uma relação
espacial fixa umas com asoutras: ficando compreendido que por relação
espacial – ‘em frente de’ e ‘atrás’,
‘superficial’ e ‘profundo’ – simplesmente
queremos dizer em primeiro lugar uma representação
da sucessão regular das funções. Será
que me fiz claro?
‘Quase que não. Talvez eu compreenda isto depois.
Mas, em qualquer caso, eis aqui uma estranha anatomia de alma –
uma coisa que, afinal de contas, absolutamente não existe
mais para os cientistas.’
O que o senhor espera? É uma hipótese como tantas
outras nas ciências: as mais antigas sempre foram um tanto
toscas. ‘Aberta à revisão’, podemos dizer
em tais casos. Parece-me aqui desnecessário recorrer ao ‘como
se’ que se tornou tão popular. O valor de uma ‘ficção’
dessa espécie (como o filósofo Vaihinger a denominaria)
depende de quanto se pode alcançar com sua ajuda.
Mas prosseguindo. Pondo-nos a par dos conhecimentos cotidianos,
reconhecemos nos seres humanos uma organização mental
interpolada entre seus estímulos sensoriais e a percepção
das suas necessidades somáticas, por um lado, e seus atos
motores, por outro, e que serve de mediador entre eles com vistas
a uma finalidade particular. Chamamos essa organização
de seu ‘Ich‘ [‘ego’; literalmente, ‘eu’].
Ora, não há novidade alguma quanto a isso. Cada um
de nós faz essa suposição sem ser filósofo,
e alguns até mesmo apesar de serem filósofos. Mas
isto, em nossa opinião, não esgota a descrição
do aparelho mental. Além desse ‘eu’, reconhecemos
outra região mental, mais impositiva e mais obscura que o
‘eu’, e a isto denominamos de ‘Es‘ [‘id’;
literalmente, ‘it‘*]. A relação entre
os dois deve ser nossa preocupação imediata.
Provavelmente o senhor protestará por termos escolhido pronomes
para descrevermos nossas duas instâncias ou províncias,
em vez de dar-lhes nomes gregos bombásticos. Na psicanálise,
contudo, gostamos de nos manter em contato com o modo popular de
pensar e preferimos tornar seus conceitos cientificamente úteis
de preferência a rejeitá-los. Não existe mérito
algum nisto. Somos obrigados a assumir essa linha, pois nossas teorias
devem ser compreendidas por nossos pacientes, que amiúde
são muito inteligentes,mas nem sempre eruditos. O impessoal
‘it‘ está imediatamente ligado com certas formas
de expressões empregadas pelas pessoas normais. ‘Isto
(it) me trespassou’, dizem as pessoas; ‘havia alguma
coisa em mim naquele momento mais forte do que eu.’ ‘C’était
plus fort que moi.’
Em psicologia só podemos descrever as coisas com a ajuda
de analogias. Nada existe de peculiar nisto; é também
o caso alhures. Mas temos que estar constantemente a modificar essas
analogias, pois nenhuma delas nos dura bastante. Em conseqüência,
ao tentar tornar clara a relação entre o ego e o id,
devo pedir-lhe que imagine o ego como uma espécie de fachada
do id, como uma frontaria, como uma camada externa e cortical deste.
Podemos apegar-nos a essa última analogia. Sabemos que as
camadas corticais devem suas características peculiares à
influência modificadora do meio externo com que confinam.
Assim, supomos que o ego é a camada do aparelho mental (do
id) que foi modificada pela influência do mundo externo (da
realidade). Isto mostrará como na psicanálise adotamos
maneiras especiais de contemplar as coisas seriamente. Para nós
o ego é realmente algo superficial e o id algo mais profundo
– contemplados de fora, naturalmente. O ego está entre
a realidade e o id, que é aquilo verdadeiramente mental.
‘Ainda não farei pergunta alguma quanto a como tudo
isto pode ser conhecido. Mas diga-me em primeiro lugar: o que o
senhor ganha com a distinção entre um ego e um id?
O que o leva a proceder assim?’
Sua pergunta indica-me o caminho certo a trilhar, pois a coisa
importante e valiosa é saber que o ego e o id diferem grandemente
um do outro em vários aspectos. As normas que regem o curso
dos atos mentais são diferentes no ego e no id; o ego persegue
diferentes finalidades e por outros métodos. Muito se poderia
dizer sobre isto; mas talvez o senhor se contentará com uma
nova analogia e com um exemplo. Pense na diferença entre
o ‘front’ e ‘atrás das linhas’, como
eram as coisas durante a guerra. Não nos surpreendíamos
então que algumas coisas no front fossem diferentes do que
eram atrás das linhas, e que muitas coisas que eram permitidas
atrás das linhas tinham de ser proibidas no front. A influência
determinante era, naturalmente, a proximidade do inimigo; no caso
da vida mental é a proximidade do mundo externo. Época
houve em que ‘fora’, ‘estranho’ e ‘hostil’
eram conceitos idênticos. E agora chegamos ao exemplo. No
id não há conflitos; as contradições
e antíteses persistem nele lado a lado indiferentemente,
sendo freqüentemente ajustados pela formação
de conciliações. Em circunstâncias semelhantes,
o ego sente um conflito que deve ser resolvido; e a decisão
está em um anseio de ser abandonado em favor do outro. O
ego é uma organização caracterizada por uma
tendência muito marcante no sentido da unificação,
da síntese. Essa característica falta ao id; está,
como poderíamos dizer, ‘toda em pedaços’;
seus diferentes anseios perseguem suas próprias finalidades
independentemente e sem levar em conta uns aos outros.
‘E se uma região mental tão importante “atrás
das linhas” existe, como pode o senhor explicar ter sido ela
desprezada até a ocasião da análise?’
Isto nos leva de volta a uma de suas perguntas anteriores,ver
em [[1]]. A psicologia barrara seu próprio acesso à
região do id, insistindo num postulado que é bastante
plausível mas insustentável: a saber, que todos os
atos mentais são conscientes para nós – que
ser consciente é o critério do que é normal,
e que, se há processos em nosso cérebro que não
são conscientes, não merecem ser chamados de atos
mentais e não são de qualquer interesse para a psicologia.
‘Mas eu devia ter pensado que isto era óbvio.’
Sim, e isto é que os psicólogos pensam. Não
obstante, facilmente se pode mostrar ser falso – isto é,
ser uma distinção inteiramente inapropriada. A auto-observação
mais superficial revela que nos podem ocorrer idéias que
não podem ter-se verificado sem preparação.
Mas o senhor não experimenta nada dessas preliminares do
seu pensamento, embora elas também devam, por certo, ter
sido de natureza mental; tudo que lhe entra na consciência
é o resultado pronto para usar. Ocasionalmente o senhor pode
tornar consciente essas estruturas de pensamento preparatórias
em retrospectiva, como uma reconstrução.
‘Provavelmente nossa atenção foi distraída,
de modo que deixamos de notar os preparativos.’
Evasões! O senhor não pode dessa maneira chegar ao
fato de que em sua pessoa podem ocorrer atos de natureza mental,
e amiúde muito complicados, dos quais sua consciência
nada sabe e o senhor também não. Ou o senhor está
preparado para supor que uma dose maior ou menor de sua ‘atenção’
é bastante para transformar um ato não mental num
mental? Mas de que vale discutir? Existem experimentos hipnóticos
nos quais a existência da tais pensamentos não conscientes
é irrefutavelmente demonstrada a qualquer um que deseja saber.
‘Não me retratarei, mas creio que finalmente o compreendo.
O que o senhor chama de “ego” é consciência;
e o seu “id” é o denominado subconsciente, sobre
o qual as pessoas tanto falam hoje em dia. Mas por que o disfarce
com os novos nomes?’
Não é disfarce. Os outros nomes não são
de valia alguma. E não tente dar-me literatura em vez de
ciência. Se alguém fala de subconsciência, não
sei dizer se ele tem em mente o termo topograficamente – para
indicar algo que está na mente abaixo da consciência
– ou qualitativamente – para indicar outra consciência,
uma substância, por assim dizer. Essa pessoa provavelmente
não está esclarecida sobre nada disso. A única
antítese digna de confiança é entre o consciente
e o inconsciente. Mas seria grave erro julgar que essa antítese
coincide com a distinção entre o ego e id. Naturalmente
seria magnífico se fosse tão simples assim: nossa
teoria teria trânsito fácil. Mas as coisas não
são tão simples. O verdadeiro é que tudo que
acontece no id é e permanece inconsciente, e que os processos
no id, e somente eles, podem tornar-se conscientes. Mas nem todos
eles são, nem sempre, nem necessariamente; e grandes partes
do ego podem continuar permanentemente inconscientes.
O tornar-se consciente de um processo mental constitiu um caso
complicado. Não posso deixar de dizer-lhe – mais uma
vez, dogmaticamente – nossas hipóteses a respeito disto.
O ego, como o senhor se recordará, é a camada externa,
periférica do id. Ora, cremos que na superfície mais
externa desse ego há uma instância dirigida imediatamente
para o mundo externo, um sistema, um órgão, através
de cuja excitação somente ocorre o fenômeno
que denominamos de consciência. Esse órgão pode
ser igualmente bem excitado de fora – recebendo assim (com
a ajuda dos órgãos do sentido) os estímulos
do mundo exterior – e de dentro – tornando-se assim
cônscio, em primeiro lugar, das sensações no
id, e então também dos processos no ego.
‘Isto está ficando cada vez pior e eu o compreendo
cada vez menos. Afinal de contas, aquilo para o que o senhor me
convidou foi um debate da questão sobre se leigos
(= não-médicos) devem empreender tratamentos analíticos.
Qual é o ponto principal, então, de todas esses exames
de teorias ousadas e obscuras que o senhor não me pode convencer
que sejam justificadas?’
Sei que não posso convencê-lo. Isto está além
de qualquer possibilidade e por esse motivo além de minha
finalidade. Quando ministramos aos nossos alunos instrução
teórica em psicanálise, podemos ver quão pouca
impressão lhes estamos causando, para começar. Eles
absorvem as teorias da análise tão friamente quanto
outras abstrações com as quais são alimentados.
Poucos deles talvez desejam ficar convencidos, mas não há
qualquer vestígio de que estejam. Mas também exigimos
que todo aquele que quiser praticar a análise em outras pessoas
se submeta ele próprio a uma análise. É somente
no curso dessa ‘auto-análise’ (como é
confusamente denominada), quando eles realmente têm a experiência
de que sua própria pessoa é afetada – ou antes,
sua própria mente – pelos processos afirmados pela
análise, que adquirem as convicções pelas quais
são ulteriormente orientados como analistas. Como então
poderia esperar convencê-lo, a Pessoa Imparcial, da correção
das nossas teorias, quando só posso pôr diante do senhor
um relato abreviado e portanto ininteligível das mesmas,
sem confirmá-las pelas próprias experiências
do senhor?
Estou agindo com uma finalidade diferente. A questão em
debate entre nós não é, no mínimo, se
a análise é sensata ou insensata, se ela está
certa em suas hipóteses ou se incidiu em erros grosseiros.
Estou formulando nossas teorias perante o senhor visto que essa
é a melhor maneira de tornar-lhe claro qual o âmbito
de idéias abrangido pela análise, com base em quais
hipóteses ela aborda um paciente e o que faz com ele. Dessa
forma uma luz bem definida será lançada sobre a questão
da análise leiga. E não fique alarmado. Se o senhor
me acompanhou até este ponto já passou pelo pior.
Tudo que se segue lhe será mais fácil. – Mas
agora, com sua licença, farei uma pausa para tomar alento.
III
‘Espero que o senhor queira dizer-me como, com base nas teorias
da psicanálise, a origem de uma doença neurótica
pode ser imaginada.’
Tentarei fazê-lo. Mas para esse fim devemos estudar nosso
ego e nosso id de um novo ângulo, do ângulo dinâmico
– vale dizer, levando em conta as forças em ação
neles e entre eles. Até agora nos contentamos com uma descrição
do aparelho mental.
‘Meu único temor é que ela possa tornar-se
ininteligível novamente!’Espero que não. Logo
o senhor se orientará nela. Pois bem, presumimos que as forças
que impulsionam o aparelho mental em atividade são produzidas
nos órgãos corporais como uma expressão das
necessidades somáticas principais. O senhor deve recordar-se
das palavras do nosso poeta-filósofo: ‘A fome e o amor
[são o que move o mundo].’ Incidentalmente, um par
de forças formidáveis! Damos a essas necessidades
corporais, até onde representam uma instigação
à atividade mental, o nome de ‘Triebe‘ [instintos],
uma palavra por cuja causa somos invejados por muitas línguas
modernas. Bem, esses instintos enchem o id: toda a energia do id,
expressando-o em breves palavras, se origina deles. Nem as forças
do ego têm qualquer outra origem; provêm daquelas do
id. O que, então, desejam esses instintos? Satisfação
– isto é, o estabelecimento de situações
nas quais as necessidades corporais possam ser extintas. Uma diminuição
da tensão da necessidade é sentido pelo nosso órgão
da consciência como agradável; um aumento dela logo
é sentido como desprazer. Dessas oscilações
surge a série de sentimentos de prazer-desprazer, de acordo
com a qual todo o aparelho mental regula sua atividade. Nesse sentido
falamos de uma ‘dominância do princípio de prazer’.
Se as exigências instintuais do id não encontrarem
satisfação alguma, surgem condições
intoleráveis. A experiência logo revela que essas situações
só podem ser estabelecidas mediante a ajuda do mundo externo.
Nesse ponto a parte do id que está dirigida para o mundo
externo – o ego – começa a funcionar. Se toda
a força impulsora que põe o veículo em movimento
for derivada do id, o ego, por assim dizer, se encarrega da direção,
sem a qual meta alguma pode ser alcançada. Os instintos no
id pressionam por satisfação imediata a todo custo,
e dessa forma nada alcançam nem chegam mesmo a acarretar
dano apreciável. Constitui tarefa do ego resguardar-se contra
tais contratempos, para servir de medianeiro entre as reivindicações
do id e as objeções do mundo externo. Ele leva a efeito
sua atividade em duas direções. Por um lado, observa
o mundo externo com o auxílio do seu órgão
de sentido, o sistema de consciência, a fim de apanhar o momento
favorável para satisfação sem dano; e , por
outro, influencia o id, refreia suas ‘paixões’,
induz seus instintos a adiar sua satisfação, e na
realidade, se for reconhecida a necessidade, a modificar seus objetivos
ou, em troca de alguma compreensão, a desistir deles. Até
onde ele domestica os impulsos do id dessa forma, ele substitui
o princípio de prazer, que anteriormente era o único
decisivo, pelo que se conhece como o ‘princípio de
realidade’, que, embora persiga os mesmos objetos finais,
leva em conta as condições impostas pelo mundo externo
real. Posteriormente, o ego aprende que existe ainda outra maneira
de obter satisfação além da adaptação
ao mundo externo que descrevi. É também possível
intervir no mundo externo modificando-o, e nele estabelecer intencionalmente
as condições que tornam possível a satisfação.
Essa atividade então se torna a função mais
elevada do ego; decisões quanto a quando é mais conveniente
controlar as paixões e curvar-se diante da realidade, e quando
é mais apropriado ficar ao lado delas e lutar contra o mundo
externo – tais decisões compõem toda a essência
da sabedoria mundial.
‘E o id atura ser dominado assim pelo ego, apesar de ser,
se é que eu o compreendo bem, a parte mais forte?’
Sim, tudo correrá bem se o ego estiver de posse de toda
a sua organização e eficiência, se tiver acesso
a todas as partes do id e puder exercer sua influência sobre
elas, pois não existe qualquer oposição natural
entre o ego e o id; eles se pertencem, e em condições
saudáveis não podem na prática ser distinguidos
um do outro.
‘Isto parece muito bem, mas não posso ver como em tal
relação ideal possa haver o menor lugar para uma perturbação
patológica.’
O senhor tem razão. Enquanto o ego e suas relações
com o id atenderem essas condições ideais, não
haverá qualquer distúrbio neurótico. O ponto
no qual a doença faz sua irrupção é
inesperado, embora quem não esteja familiarizado com patologia
geral fique surpreendido em encontrar uma confirmação
do princípio de que são os desenvolvimentos e diferenciações
mais importantes que trazem em si as sementes da doença,
da falha de função.
‘O senhor está-se tornando erudito demais. Não
posso acompanhá-lo.’
Devo retroagir um pouco mais. Um pequeno organismo vivo é
uma coisa verdadeiramente infeliz e impotente, não é
assim? comparado com o mundo externo intensamente poderoso, repleto
como está de influências destrutivas. Um organismo
primitivo, que não tenha desenvolvido uma organização
apropriada do ego, encontra-se à mercê de todos esses
‘traumas’. Ele vive pela ‘cega’ satisfação
de seus desejos instintuais e muitas vezes perece por causa disto.
A diferenciação de um ego é, acima de tudo,
um passo no sentido da autopreservação. Nada, é
verdade, pode ser aprendido da sua destruição, mas
se alguém sobreviveu com sorte a um trauma poderá
observar a abordagem de situações semelhantes e dar
sinal do perigo por uma repetição abreviada das impressões
que experimentou em relação com o trauma – por
um afeto de ansiedade. Essa reação à percepção
do perigo introduz agora uma tentativa de fuga, que pode ter o efeito
de poupar a vida até que se tenha tornado bastante forte
para fazer face aos perigos do mundo externo de maneira mais ativa
– mesmo agressivamente, talvez.
‘Tudo isto está muito longe do que o senhor prometeu
relatar-me.’
O senhor não tem idéia alguma de como eu estou perto
de cumprir minha promessa. Mesmo em organismos que depois se desenvolvem
numa eficiente organização do ego, o ego deles é
débil e pouco se diferencia, para começar, de seu
id, durante seus primeiros anos de infância. Imagine agora
o que acontecerá se esse ego impotente experimentar uma exigência
instintual do id ao qual ele gostaria de opor resistência
(porque sente que satisfazê-lo é perigoso e provocaria
uma situação traumática, um choque com o mundo
externo), mas que ele não pode controlar, porque ainda não
possui bastante força para fazê-lo. Em tal caso o ego
trata do perigo instintual como se ele fosse externo; faz uma tentativa
de fuga, afasta-se dessa parte do id e o deixa entregue ao seu destino,
depois de retirar dele todas as contribuições que
em geral presta aos impulsos instintuais. O ego, como costumamos
dizer, institui uma repressão desses impulsos instintuais.
Por enquanto isto tem o efeito de desviar o perigo, mas não
se pode confundir o interno e o externo impunemente. Não
se pode fugir de si mesmo. Na repressão o ego está
acompanhando o princípio de prazer, que em geral ele tem
o hábito de corrigir, estando destinado a sofrer dano como
vingança. Isto está no fato de o ego haver permanentemente
estreitado sua esfera de influência. O impulso instintual
reprimido agora está isolado, abandonado a si mesmo, inacessível,
mas também não influenciável. Ele segue seu
próprio caminho. Mesmo depois, em geral, quando o ego se
tornou mais forte, ainda não pode suspender a repressão;
sua síntese fica prejudicada, uma parte do id permanece terreno
proibido ao ego. Nem o impulso instintual isolado permanece ocioso;
ele compreende como ser compensado por lhe ser negada satisfação
normal; produz derivados psíquicos que lhe tomam o lugar;
vincula-se a outros processos que por influência dele também
arranca do ego; e finalmente irrompe no ego e na consciência
sob a forma de um substituto irreconhecivelmente distorcido, criando
o que denominamos de um sintoma. De imediato a natureza de uma perturbação
neurótica se torna clara para nós: por um lado, um
ego que é inibido em sua síntese, que não tem
qualquer influência sobre partes do id, que deve renunciar
a algumas de suas atividades a fim de evitar novo choque com o que
foi reprimido, e que se exaure no que, na maior parte, são
atos vãos de defesa contra sintomas, os derivados dos impulsos
reprimidos; por outro lado, um id no qual os instintos individuais
se tornaram independentes, perseguem seus objetivos independentemente
dos interesses da pessoa como um todo e doravante obedecem às
leis somente da psicologia que domina nas profundezas do id. Se
observarmos toda a situação chegaremos a uma fórmula
simples quanto à origem de uma neurose: o ego faz uma tentativa
de suprimir certas partes do id de maneira inapropriada; essa tentativa
falhou e o id tirou sua vingança. Uma neurose é assim
o resultado de um conflito entre o ego e o id, no qual o ego se
envolveu porque, como revela uma investigação cuidadosa,
ele deseja a todo custo reter sua adaptabilidade em relação
com o mundo externo real. A divergência verifica-se entre
o mundo externo e o id; e é porque o ego, leal a sua natureza
mais íntima, toma o partido do mundo externo que ele se torna
envolvido num conflito com seu id. Mas observe que o que cria o
determinante da doença não é o fato desse conflito
– pois discordâncias dessa natureza entre a realidade
e o id são inevitáveis, sendo uma das principais tarefas
do ego servir de mediador nelas -, mas a circunstância de
o ego haver feito uso do instrumento ineficiente de repressão
para lidar com o conflito. Mas isto por sua vez se deve ao fato
de que o ego, na ocasião em que se incumbiu da tarefa, era
não desenvolvido e impotente. Todas as repressões
decisivas se verificam na primeira infância.
‘Que assunto notável! Seguirei seu conselho e não
farei críticas, visto que o senhor deseja apenas mostrar-me
aquilo em que a psicanálise crê a propósito
da origem da neurose, de modo que o senhor venha a dizer como ela
se dispõe a combatê-la. Eu teria várias perguntas
a fazer-lhe e depois as formularei. Mas no momento sinto-me tentado,
dessa vez, a levar adiante a sua seqüência de pensamento
e a aventurar-me numa teoria própria. O senhor expôs
a relação entre o mundo externo, o ego e o id, e formulou
como sendo determinante de uma neurose que o ego em sua dependência
do mundo externo luta contra o id. Não é concebível
o caso oposto de o ego, num conflito dessa espécie, permitir
a si mesmo ser arrastado para fora pelo id e renunciar à
sua consideração pelo mundo externo? O que acontece
num caso como este? pelas minhas idéias leigas de natureza
da insanidade diria que tal decisão por parte do ego poderia
ser o determinante da insanidade. Afinal de contas, uma fuga da
realidade dessa espécie parece ser a essência da’insanidade.Sim.
Eu próprio pensei nessa possibilidade, e na realidade creio
que ela atende aos fatos – embora para provar a verdadeira
suspeita exigisse o exame de algumas considerações
altamente complicadas. As neuroses e psicoses estão, como
é evidente, intimamente relacionadas, mas devem, não
obstante, diferir em algum aspecto decisivo. Isto bem poderia ser
o partido tomado pelo ego num conflito dessa espécie. Em
ambos os casos o id conservaria sua característica de cega
inflexibilidade.
‘Muito bem, prossiga! Quais os indícios dados pela
sua teoria sobre o tratamento das doenças?’
É fácil agora descrever nossa finalidade terapêutica.
Tentamos restaurar o ego, livrá-lo de suas restrições,
e dar-lhe de volta o domínio sobre o ego que ele perdeu devido
às suas primeiras repressões. É para esse único
fim que efetuamos a análise, toda nossa técnica está
dirigida para essa finalidade. Temos de procurar as repressões
que foram estabelecidas e instigar o ego a corrigi-las com nossa
ajuda e a lidar com os conflitos melhor do que mediante uma tentativa
de fuga. Visto que essas repressões pertencem bem aos primeiros
anos da infância, o trabalho de análise nos leva também
de volta àquele período. Nosso caminho a essas situações
de conflito, que na maior parte foram esquecidas e que tentamos
reviver na lembrança do paciente, nos é mostrado pelos
seus sintomas, sonhos e associações livres. Estes
devem, contudo, ser em primeiro lugar interpretados – traduzidos
-, pois, sob a influência da psicologia do id, assumiram formas
de expressão estranhas à nossa compreensão.
Podemos presumir que quaisquer associações, pensamentos
e lembranças que o paciente seja incapaz de comunicar-nos
sem lutas internas estão de alguma maneira vinculados ao
material reprimido ou são seus derivados. Ao estimular o
paciente a desprezar suas resistências relatando essas coisas,
estamos educando seu ego a superar sua inclinação
no sentido de tentativas de fuga e a tolerar uma abordagem ao que
é reprimido. No fim, se a situação da repressão
puder ser reproduzida com êxito em sua memória, sua
obediência será brilhantemente recompensada. Toda a
diferença entre sua idade então e agora atua a seu
favor, e a coisa da qual seu ego infantil fugiu aterrorizado muitas
vezes parecerá ao seu ego adulto e fortalecido nada mais
que uma brincadeira de criança.
IV
‘Tudo o que o senhor me relatou até agora foi psicologia.
Muitas vezes soou estranho, difícil ou obscuro; mas sempre
foi – se é que posso dizê-lo assim – “puro”.
Até agora muito pouco tenho sabido, sem dúvida, sobre
psicanálise; mas não obstante chegou aos meus ouvidos
o rumor de que o senhor se ocupa principalmente com coisas que não
têm qualquer direito a esse predicado. O fato de o senhor
não haver ainda aflorado nada dessa espécie faz-me
sentir que está deliberadamente ocultando algo. E há
outra dúvida que não posso reprimir. Afinal de contas,
como o senhor mesmo diz, as neuroses são perturbações
da vida mental. É possível, então, que coisas
tão importantes não desempenhem absolutamente qualquer
papel nessas perturbações profundas?”
Então o senhor julga que uma consideração
tanto do que é mais baixo quanto do que é mais alto
tenha faltado às nossas apreciações até
este momento? O motivo disto é que não consideramos
absolutamente até agora, por esta vez, desempenhar eu próprio
o papel de um interruptor que retém a marcha da conversa.
Falei-lhe tanto de psicologia porque desejava que o senhor ficasse
com a impressão aplicada – e, além disso, de
uma psicologia que é desconhecida fora da análise.
Um analista deve, portanto, antes de tudo, ter aprendido essa psicologia,
essa psicologia profunda ou psicologia do inconsciente, ou pelo
menos tanto dela quanto se conhece nos dias que correm. Necessitaremos
disto como uma base para nossas conclusões ulteriores. Mas
agora, que foi o senhor quis dizer com sua alusão a ‘pureza’?
‘Bem, geralmente se informa que nas análises os fatos
mais íntimos – e os mais sórdidos – da
vida sexual são trazidos à tona para apreciação
em todos os seus detalhes. Se for assim – não fui capaz
de depreender dos seus debates psicológicos que seja necessariamente
assim – isto seria um forte argumento para que se restringisse
esses tratamentos a médicos. Como se poderia sonhar em permitir
tais perigosas liberdades a pessoa de cujo caráter não
se tivesse qualquer garantia?’
É verdade que o médicos desfrutam de certos privilégios
na esfera do sexo: é-lhes até mesmo permitido examinar
os órgãos genitais das pessoas – embora isto
não lhes fosse permitido no Oriente e embora alguns reformadores
idealistas (o senhor sabe quem eu tenho em mente) tenham disputado
esse privilégio. Mas o senhor quer saber em primeiro lugar
se é assim em análise e por que deve ser assim. –
Sim, é assim.
E deve ser assim, em primeiro lugar porque a análise está
inteiramente fundamentada em completa franqueza. As circunstâncias
financeiras, por exemplo, são discutidas com igual detalhe
e imparcialidade: dizem-se coisas que são ocultadas de qualquer
cidadão, mesmo se ele não for concorrente ou um coletor
de impostos. Não discutirei – na realidade, eu próprio
insistirei com energia – que essa obrigação
à imparcialidade também impõe grave responsabilidade
moral ao analista. E deve ser assim, em segundo lugar, porque os
fatores da vida sexual desempenham um papel extremamente importante,
dominante e talvez mesmo específico entre as causas e fatores
precipitantes das doenças neuróticas. Que mais pode
a análise fazer se não manter-se perto do seu tema,
do material apresentado pelo paciente? O analista jamais induz o
paciente até o terreno do sexo. Ele não lhe diz antecipadamente:
‘Estaremos lidando com as intimidades de sua vida sexual!’
Ele lhe permite que comece o que tem a dizer onde lhe aprouver,
e tranqüilamente aguarda até que o próprio paciente
aborde fatos sexuais. Sempre costumava advertir meus alunos: ‘Nossos
antagonistas nos disseram que nos defrontaremos com casos nos quais
o fator do sexo não desempenha papel algum. Tenhamos o cuidado
de não introduzi-lo em nossas análises e de assim
estragar nossa oportunidade de encontrar tal caso.’ Mas até
agora nenhum de nós teve essa boa sorte.
Estou cônscio, naturalmente, de que nosso reconhecimento
da sexualidade se tornou – quer confessadamente, quer não
– o motivo mais forte da hostilidade de outras pessoas em
relação à análise. Poderá isto
abalar nossa confiança? Isto simplesmente nos revela como
é neurótica toda nossa vida civilizada, visto que
pessoas manifestamente normais não se comportam de forma
muito diferente das neuróticas. Numa época em que
a psicanálise foi solenemente levada a julgamento perante
as sociedades cultas da Alemanha – hoje as coisas se tornaram
inteiramente mais tranqüilas -, um dos oradores alegou possuir
autoridade peculiar porque, assim disse ele, chegou mesmo a permitir
que seus pacientes falassem: para finalidades de diagnósticos,
claramente e para pôr à prova as asserções
dos analistas. ‘Mas’, acrescentou ele, ‘se começarem
a falar sobre assuntos sexuais fecho-lhes as bocas.’ Que pensa
disto como um método de demonstração? A sociedade
erudita aplaudiu o orador calorosamente em vez de sentir-se, com
razão, envergonhada do seu relato. Só a triunfante
certeza proporcionada pela consciência de preconceitos sustentados
em comum pode explicar a falta de pensamento lógico do orador.
Anos depois alguns daqueles que na épocatinham sido meus
partidários cederam à necessidade de libertar a sociedade
humana do julgo da sexualidade que a psicanálise estava procurando
impor-lhe. Um deles explicou que o que é sexual não
significa absolutamente sexualidade, mas algo mais, algo abstrato
e místico. E outro chegou a declarar que a vida sexual é
meramente uma das esferas na qual os seres humanos procuram por
uma ação sua necessidade imperiosa de poder e dominação.
Eles têm sido acolhidos com grandes aplausos, pelo menos no
momento.
‘Aventurar-me-ei de certa maneira, dessa vez, a tomar partido
neste ponto. Surpreendi-me como sendo extremamente ousado afirmar
que a sexualidade não é necessidade natural e primitiva
dos seres vivos, mas uma expressão de algo mais. Só
se precisa considerar o exemplo dos animais.’
Isto não faz diferença alguma. Não há
qualquer mistura, por mais absurda, que a sociedade de bom grado
não esteja disposta a engolir se for anunciada como um antídoto
à temida predominância da sexualidade.
Confesso, além disso, que a aversão que o senhor
mesmo tem traído de atribuir ao fator da sexualidade um papel
tão relevante na causação da neurose –
confesso que isto quase não me parece compatível com
a sua tarefa como uma Pessoa Imparcial. O senhor não teme
que essa antipatia possa interferir em fazer um julgamento justo?
‘Lamento ouvi-lo dizer isto. Sua confiança em mim
parece estar abalada. Mas nesse caso por que não escolheu
outro como sua Pessoa Imparcial?’
Porque essa outra pessoa não teria pensado em nada diferente
do senhor. Mas se ela tivesse sido preparada desde o começo
para reconhecer a importância da vida sexual, todos teriam
exclamado: ‘Ora, essa não é nenhuma Pessoa Imparcial,
é um dos seus partidários!’ Não, estou
longe de abandonar a expectativa de ser capaz de influenciar suas
opiniões. Devo admitir, contudo, que do meu ponto de vista
essa situação é diferente daquela com a qual
lidamos antes. No tocante aos nossos debates psicológicos,
trata-se para mim de uma questão de indiferença se
o senhor acredita ou não em mim, contanto somente que tenha
a impressão de que aquilo que nos preocupa são problemas
puramente psicológicos. Mas aqui, quanto à questão
da sexualidade, deveria não obstante contentar-me se o senhor
fosse acessível à compreensão de que seu motivo
mais forte de contradição é precisamente a
arraigada hostilidade de que partilha com tantas outras pessoas.
‘Mas afinal de contas não possuo a experiência
que lhe deu inabalável certeza.’
Muito bem. Posso agora continuar com minha exposição.
A vida sexual não é simplesmente algo apimentado;
constitui também sério problema científico.
Muito havia de novo a ser aprendido sobre ela, muitas coisas estranhas
a serem explicadas. Acabo de dizer-lhe que a análise tem
de remontar aos primeiros anos da infância do paciente, porque
foi então que ocorreram as repressões decisivas, enquanto
seu ego era débil. Mas certamente na infância não
existe qualquer vida sexual? Com certeza ela só começa
na puberdade? Pelo contrário. Temos de aprender que os impulsos
instintuais sexuais acompanham a vida a partir do nascimento, sendo
precisamente a fim de desviar esses instintos que o ego infantil
institui repressões. Uma coincidência notável,
não é? que as criancinhas já devem estar lutando
contra a força da sexualidade, do mesmo modo como o orador
da sociedade erudita iria fazer depois, e posteriormente ainda meus
seguidores que estabeleceram suas próprias teorias. Como
isto acorre? A explicação geral seria que nossa civilização
se acha inteiramente estruturada às expensas da sexualidade;
mas há muito mais a ser dito sobre o assunto.
A descoberta da sexualidade infantil é uma daquelas da quais
temos motivo de nos sentirmos envergonhados [por causa de sua evidência].
Alguns pediatras, assim parece, sempre tiveram conhecimento disto,
e algumas enfermeiras de crianças. Homens hábeis,
que se denominam a si próprios psicólogos de crianças,
logo falaram em tons de censura de uma ‘profanação
da inocência da infância’. Mais uma vez, o sentimento
em vez do argumento! Fatos dessa espécie são de ocorrência
cotidiana em entidades políticas. Um membro da oposição
ergue-se e denuncia certo desacerto administrativo no serviço
público, no exército, no judiciário e assim
por diante. Diante disto outro membro, preferivelmente do governo,
declara que tais afirmações constituem uma afronta
ao sentimento de honra do organismo político, do exército,
da dinastia, ou mesmo da nação. Não passam
assim de inverdades. Sentimentos como estes não podem tolerar
quaisquer afrontas.
A vida sexual das crianças naturalmente é diferente
da dos adultos. A função sexual, desde seus primórdios
até a forma definitiva na qual nos é tão familiar,
passa por um complicado processo de desenvolvimento. Desenvolve-se
juntamente, a partir de numerosos instintos componentes, com diferentes
finalidades e passa por várias fases de organização
até que finalmente entra a serviço da reprodução.
Nem todos os instintos componentes são igualmente úteis
para o resultado final; devem ser desviados, remodelados e em parte
suprimidos. Tal curso de desenvolvimento de grande alcance nem sempre
é percorrido sem uma lacuna; ocorrem inibições
no seu desenvolvimento, fixações parciais nas primeiras
fases de desenvolvimento. Se depois surgirem obstáculos ao
exercício da função sexual, o anseio sexual
– a libido, como o denominamos – é capaz de retornar
a esses pontos mais antigos de fixação. O estado da
sexualidade das crianças e de suas transformações
até a maturidade também nos deu a chave de uma compreensão
do que se conhece como as perversões sexuais, que as pessoas
sempre costumavam descrever com todos os sinais indispensáveis
de repulsa, mas cuja origem jamais foram capazes de explicar. Todo
o tópico é de interesse incomum, mas para as finalidades
de nossa conversa não faz muito sentido dizer-lhe mais a
respeito do mesmo. A fim de nos orientarmos nele, carecemos de conhecimentos
anatômicos e fisiológicos, não podendo todos
eles, infelizmente, ser adquiridos em escolas de medicina. Mas uma
familiaridade com a história da civilização
e com a mitologia é igualmente indispensável.
‘Depois de tudo isto, ainda não posso formar um quadro
da vida sexual das crianças.’
Então abordarei ainda mais o assunto; seja como for, não
me é fácil afastar-me dele. Dir-lhe-ei, então,
que o fato mais notável sobre a vida sexual da crianças,
segundo me parece, passa por todo seu desenvolvimento mais amplo
nos cinco primeiros anos de vida. A partir desse ponto até
a puberdade estende-se o que se conhece como período de latência.
Durante ele a sexualidade normalmente não avança mais;
pelo contrário, os anseios sexuais diminuem de vigor e são
abandonadas e esquecidas muitas coisas que a criança fazia
e conhecia. Nesse período da vida, depois que a primeira
eflorescência da sexualidade feneceu, surgem atitudes do ego
como a vergonha, a repulsa e a moralidade, que estão destinadas
a fazer frente à tempestade ulterior da puberdade e a alicerçar
o caminho dos desejos sexuais que se vão despertando. Esse
‘desencadeamento bifásico’, como é denominado,
da vida sexual muito tem a ver com a gênese das doenças
neuróticas. Parece ocorrer somente nos seres humanos, e talvez
seja um dos determinantes do privilégio humano de tornar-se
neurótico. A pré-história da vida sexual foi
tão desprezada antes da psicanálise como, em outro
setor, os antecedentes da vida mental consciente. O senhor com razão
suspeitará de que os dois estão intimamente ligados.
Há muito a dizer, com relação ao que nossas
expectativas não nos prepararam, sobre o conteúdo,
manifestações e realizações desse período
inicial da sexualidade. Por exemplo, o senhor sem dúvida
ficará surpreendido em saber como amiúde meninos de
pouca idade têm medo de ser devoradospelo pai. (E talvez também
se surpreenda por eu incluir esse medo entre os fenômenos
da vida sexual.) Mas gostaria de lembrar-lhe o conto mitológico,
do qual é possível que ainda se recorde dos seus dias
de escola, de como o deus Cronos engoliu os filhos. Como isto lhe
deve ter soado estranho quando o ouviu pela primeira vez! Mas suponho
que nenhum de nós pensou nisto naquela época. Hoje
podemos também recordar grande número de contos de
fadas nos quais aparece algum animal voraz como um lobo, e o reconheceremos
como um disfarce do pai. Esta é a oportunidade de assegurar-lhe
que foi somente através do conhecimento da sexualidade infantil
que se tornou possível compreender a mitologia e o mundo
dos contos de fadas. Aqui então algo foi alcançado
como um subproduto de estudos analíticos.
O senhor ficará não menos surpreendido em saber que
as crianças do sexo masculino sofrem do medo de ser roubadas
do seu órgão sexual pelo pai, de modo que esse medo
de ser castrado exerce poderosíssima influência sobre
o desenvolvimento do seu caráter e na decisão do rumo
a ser seguido por sua sexualidade. E mais uma vez aqui a mitologia
poderá dar-lhe a coragem de crer na psicanálise. O
mesmo Cronos que devorou os filhos também emasculou seu pai
Uranos, e depois ele próprio foi emasculado como vingança
por seu filho Zeus, que fora salvo pela astúcia de sua mãe.
Se o senhor se tiver sentido inclinado a supor que tudo o que a
psicanálise informa sobre a sexualidade inicial das crianças
provém da imaginação perturbada dos analistas,
deve pelo menos admitir que sua imaginação criou o
mesmo produto que as atividades imaginativas do homem primitivo,
cujos mitos e contos de fadas são o precipitado. A alternativa
mais amável, e provavelmente também o ponto de vista
mais pertinente, seria que na vida mental das crianças, hoje
em dia, podemos ainda detectar os mesmos fatores arcaicos que em
geral outrora dominavam nos dias primevos da civilização
humana. Em seu desenvolvimento mental, a criança estaria
repetindo a história de sua raça de uma forma abreviada,
do mesmo modo como a embriologia de há muito reconheceu ser
este o caso do desenvolvimento somático.
Outra característica da sexualidade infantil inicial é
que o órgão sexual feminino propriamente dito ainda
não desempenha nela qualquer papel: a criança ainda
não o descobriu. A ênfase recai inteiramente no órgão
masculino, todo o interesse da criança está dirigido
para a questão de se ele se acha presente ou não.
Sabemos menos acerca da vida sexual de meninas do que de meninos.
Mas não é preciso envergonharmo-nos dessa distinção;
afinal de contas, a vida sexual das mulheres adultas é um
‘continente negro’ paraa psicologia. Mas aprendemos
que as meninas sentem profundamente falta de um órgão
sexual que seja igual em valor ao masculino; elas se consideram
por causa disso inferiores, e essa ‘inveja do pênis’
é a origem de todo um grande número de reações
femininas características.
Também é característico das crianças
que suas duas necessidades excretórias sejam catexizadas
[carregadas] de interesse sexual, que é mais uma vez obliterada
na prática de fazer chistes. Para nós pode parecer
um fato desagradável, mas leva muito tempo para que as crianças
desenvolvam sentimentos de repugnância. Isto não é
discutido nem mesmo por pessoas que de outra forma insistem sobre
a pureza seráfica da mente da criança.
Nada, contudo, merece mais atenção do que o fato
de as crianças regularmente dirigirem seus desejos sexuais
para os seus parentes mais próximos – em primeiro lugar,
portanto, para o pai e a mãe, e depois para seus irmãos
e irmãs. O primeiro objeto do amor de um menino é
sua mãe, e de uma menina seu pai (exceto até onde
uma disposição bissexual inata favorece a presença
simultânea da atitude contrária). Sente-se o outro
genitor como um rival perturbador, e não infreqüentemente
é encarado com forte hostilidade. O senhor deve compreender-me
bem. O que quero dizer não é que a criança
deseja ser tratada por seu genitor predileto simplesmente com a
espécie de afeição que nós adultos gostamos
de considerar como a essência da relação pai-filho.
Não, a análise não nos deixa dúvida
alguma de que os desejos da criança se estendem, além
de tal afeição, a tudo que compreendemos por satisfação
sensual – até onde, vale dizer, o permitem os poderes
de imaginação da criança. É fácil
ver que a criança jamais adivinha os fatos reais das relações
sexuais; ela os substitui por outras idéias oriundas de sua
própria experiência e sentimentos. Em geral seus desejos
culminam na intenção de dar à luz ou, de alguma
maneira indefinível, de procriar um bebê. Também
os meninos, em sua ignorância, não se excluem do desejo
de dar à luz uma criança. Damos a toda essa estrutura
mental a denominação de ‘complexo de Édipo’,
segundo a conhecida lenda grega. Com o término do período
sexual inicial ele deve normalmente ser abandonado, deve desintegrar-se
radicalmente e ser transformado, estando os resultados dessa transformação
destinados a importantes funções na vida mental ulterior.
Mas em geral isso não se efetua de maneira bastante radical,
caso em que a puberdade acarreta uma revivescência do complexo,
que pode ter graves conseqüências.
Estou surpreendido por o senhor ainda estar calado. Isto dificilmente
quer dizer que consente. – Ao afirmar que a primeira escolha
de uma criança é, para empregar o termo técnico,
uma escolha incestuosa, a análise sem dúvida mais
uma vez fere os sentimentos mais sagrados da humanidade, epode muito
bem estar preparada para uma quantidade correspondente de descrença,
contradição e ataque. E estes ela tem recebido com
abundância. Nada a tem danificado mais na abalizada opinião
dos seus contemporâneos do que sua hipótese do complexo
de Édipo como uma estrutura universalmente vinculada ao destino
humano. O mito grego, incidentalmente, deve ter tido o mesmo significado;
mas a maioria dos homens hoje em dia, eruditos igualmente, prefere
crer que a Natureza estabeleceu em nós uma aversão
inata como salvaguarda contra a possibilidade de incesto.
Mas vamos em primeiro lugar convocar a história em nosso
auxílio. Quando Caio Júlio César aportou no
Egito, encontrou a jovem rainha Cleópatra (que logo iria
tornar-se tão importante para ele) casada com o irmão
dela ainda mais jovem, Ptolomeu. Numa dinastia egípcia nada
havia de peculiar nisso; os Ptolomeus, que eram de origem grega,
haviam simplesmente continuado com o costume que fora praticado
por seus antecessores, os antigos faraós, por alguns milhares
de anos. Isto, todavia, era meramente um incesto entre irmão
e irmã, que mesmo na época atual não é
julgado tão rigorosamente. Voltemos assim à nossa
principal testemunha em assuntos concernentes aos tempos primevos
– a mitologia. Ela nos informa que os mitos de cada povo,
e não somente dos gregos, estão repletos de casos
amorosos entre pais e filhas e mesmo entre mães e filhos.
A cosmologia, não menos que a genealogia de raças
reais, está fundamentada no incesto. Para que finalidade
o senhor supõe que essas lendas foram criadas? Para estigmatizar
deuses e reis como criminosos? para imputar-lhes a repulsa da raça
humana? De preferência, por certo, porque os desejos incestuosos
constituem um legado humano primordial e jamais foram plenamente
superados, de modo que sua realização ainda era concedida
aos deuses e aos seus descendentes quando a maioria dos seres humanos
comuns já era obrigada a renunciar a tais desejos. Está
em completa harmonia com essas lições da história
e da mitologia o fato de encontrarmos desejos ainda presentes a
atuantes na infância do indivíduo.
‘Eu poderia considerar erroneamente que o senhor tivesse
tentado ocultar de mim tudo isso sobre a sexualidade infantil. Parece-me
muitíssimo interessante, particularmente por causa de sua
ligação com a pré-história humana.’
Temia que pudesse afastar-nos para muito longe de nossa finalidade.
Mas talvez, afinal de contas, seja útil.
‘Agora me diga, então, que certeza pode o senhor oferecer
para os seus achados analíticos sobre a vida sexual das crianças?
Sua convicção baseia-se unicamente em pontos de concordância
com a mitologia e a história?’Oh, de modo algum. Ela
tem como base a observação direta. O que aconteceu
foi isto. Tínhamos começado por inferir o conteúdo
da infância sexual a partir da análise de adultos –
isto é, cerca de vinte a quarenta anos depois. Posteriormente,
procedemos a análises sobre as próprias crianças,
e não deixou de ser uma grande vitória quando assim
fomos capazes de confirmar nelas tudo que tínhamos podido
adivinhar, apesar da quantidade do que havia ficado encoberto e
distorcido no intervalo.
‘O quê? O senhor submeteu criancinhas à análise?
crianças com menos de seis anos? isso pode ser feito? E não
é muito arriscado para as crianças?
Pode muito bem ser feito. Quase não se pode acreditar no
que se passa numa criança de quatro ou cinco anos de idade.
As crianças têm uma mente muito ativa nessa idade;
seu período sexual prematuro é também um período
de florescimento intelectual. Tenho a impressão de que com
o início do período de latência elas se tornam
mentalmente inibidas também, mais estúpidas. Também
a partir dessa época muitas crianças perdem seu encanto
físico. E, no tocante ao dano causado pela análise
prematura, posso informar-lhe que a primeira criança na qual
se aventurou o primeiro experimento, há quase vinte anos,
desde então se desenvolveu num jovem saudável e capaz,
que atravessou a puberdade de maneira irrepreensível, apesar
de alguns graves traumas psíquicos. Talvez seja de se esperar
que as coisas não sejam piores para as outras ‘vítimas’
da análise prematura. Muito daquilo que é de interesse
está ligado a essas análises infantis; é possível
que no futuro elas se tornem ainda mais importantes. Do ponto de
vista da teoria, seu valor é indubitável, proporcionando
informações destituídas de ambigüidade
sobre problemas que permanecem insolúveis nas análises
de adultos; e dessa forma protegem o analista de erros que poderiam
ter para ele conseqüências graves. Surpreendemos os fatores
que levam à formação de uma neurose enquanto
se acham realmente em ação e não podemos então
confundi-los. No interesse da criança, é verdade,
a influência analítica deve ser combinada com medidas
educacionais. A técnica ainda tem de receber sua confirmação.
Mas o interesse prático é despertado pela observação
de que grande número de nossas crianças passa por
uma fase claramente neurótica no curso de seu desenvolvimento.
Visto termos aprendido a observar com maior agudeza, somos tentados
a afirmar que a neurose nas crianças não é
a exceção mas a regra, como se ela quase não
pudesse ser evitada na trilha desde a disposição inata
da infância até a sociedade civilizada. Na maioria
dos casos essa fase neurótica da infância é
superada espontaneamente. Mas será que ela não pode
também regularmente deixar seus vestígios no adulto
saudável comum? Por outro lado, naqueles que se tornam neuróticos
depois, nunca deixamos deencontrar elos com a doença na infância,
embora na época não tenha sido necessário ser
muito observável. De forma precisamente análoga os
médicos hoje, creio, sustentam a opinião de que cada
um de nós passou por uma investida de tuberculose em sua
infância. É verdade que no caso das neuroses o fator
de imunização não atua, mas somente o fator
de predisposição.
Voltemos a sua pergunta sobre a certeza. Ficamos de maneira geral
bem convictos, pelo exame direto das crianças, de que tínhamos
razão em nossa interpretação daquilo que os
adultos nos relataram sobre sua infância. Em grande número
de casos, contudo, outra espécie de confirmação
tornou-se possível. O material da análise de alguns
pacientes permitiu-nos reconstruir certos acontecimentos externos,
certos eventos impressionantes de seus anos de infância, dos
quais não conservaram qualquer lembrança consciente.
Acidentes felizes, informações de pais ou de amas
ofereceram depois provas irrefutáveis de que essas ocorrências
realmente se verificaram. Isto, naturalmente, não aconteceu
com freqüência, mas quando se verificou, foi com esmagadora
impressão. A reconstrução correta, o senhor
precisa saber, de tais experiências esquecidas da infância
tem sempre grande efeito terapêutico, permitam ou não
confirmação objetiva. Esses eventos devem sua importância,
naturalmente, ao fato de terem ocorrido numa idade tão prematura,
numa época em que podiam ainda produzir um efeito traumático
sobre o ego frágil.
‘E que espécie de eventos podem ser esses, que têm
de ser descobertos pela análise?’
De várias espécies. Primeiramente, impressões
capazes de influenciar permanentemente a vida sexual que desabrocha
da criança – tais como observações de
atividades sexuais entre adultos, ou experiências sexuais
suas com um adulto ou outra criança (fatos que não
são raros); ou, ainda, o ouvir por acaso conversas, compreendidas
na época ou retrospectivamente, das quais a criança
pensou poder tirar conclusões sobre assuntos misteriosos
ou fantásticos; ou, ainda, observações ou ações
da própria criança que dão prova de atitudes
significativas de efeito ou inimizade para com outras pessoas. É
de especial importância numa análise induzir uma lembrança
da atividade sexual esquecida do próprio paciente como criança
e também da intervenção dos adultos que acabaram
com a mesma.
‘Isso me dá a oportunidade de trazer à baila
uma pergunta que há muito desejava formular. Qual é,
então, a natureza dessa “atividade sexual” das
crianças numa tenra idade, que, como o senhor diz, foi desprezada
antes dos dias da análise?’
Constitui um fato estranho que a parte regular e essencial dessa
atividade sexual não tenha sido desprezada. Ou antes, ela
não é de forma alguma estranha, pois foi impossível
desprezá-la. Os impulsos sexuais das crianças encontram
suas principais expressões na autogratificação
pela fricção de seus próprio órgãos
genitais, ou, mais precisamente, da porção masculina
deles. A distribuição extraordinariamente ampla dessa
forma de ‘travessura’ infantil sempre foi conhecida
dos adultos, e foi considerada como grave pecado e severamente punida.
Mas por favor não me pergunte como as pessoas podiam reconciliar
essas observações das inclinações imorais
das crianças – porque as crianças o fazem, como
elas próprias dizem, porque lhes dá prazer –
com a teoria de sua pureza e não-sensualidade inatas. O senhor
tem de fazer com que nossos adversários solucionem esse enigma.
Nós temos um problema mais importante diante de nós.
Que atitude devemos adotar em relação à atividade
sexual da primeira infância? Sabemos a responsabilidade na
qual estamos incorrendo se a suprimirmos; mas não nos aventuramos
a deixá-la seguir seu curso sem restrição.
Entre as raças num baixo nível de civilização,
e entre as camadas inferiores das raças civilizadas, a sexualidade
das crianças parece ter recebido livre rédea. Isso
provavelmente oferece poderosa proteção contra o subseqüente
desenvolvimento de neuroses no indivíduo. Mas isso ao mesmo
tempo não envolve uma extraordinária perda de aptidão
para realizações culturais? Muito há para sugerir
que aqui estamos diante de uma nova Sila e Caríbdis.
Mas se os interesses que são estimulados pelo estudo da
vida sexual dos neuróticos criam uma atmosfera favorável
ao estímulo da lascívia – isso é uma
questão que eu me aventuro a deixar ao seu próprio
julgamento.
V
‘Creio que compreendo sua finalidade. O senhor deseja demonstrar-me
que espécie de conhecimento se faz necessário a fim
de praticar a análise, de modo que eu possa ser capaz de
julgar se somente os médicos devem ter o direito de praticá-la.
Bem, até agora surgiu muito pouco que tem a ver com a medicina:
muito de psicologia e um pouco de biologia ou de ciência sexual.
Mas talvez não tenhamos chegado ao fim?’
Certamente não. Ainda existem lacunas a ser preenchidas.
Posso fazer um pedido? Quer descrever-me como o senhor imagina um
tratamento analítico? – da mesma forma como se o senhor
mesmo tivesse de proceder a um.
‘Uma bela idéia, sem dúvida! Não, não
tenho a menor intenção de resolver nossa controvérsia
por uma experiência dessa espécie. Mas apenas para
ser agradável, farei o que o senhor pede – a responsabilidade
será sua. Muito bem. Suporei que o paciente me procura e
se queixa dos seus males. Prometo-lhe recuperação
ou melhoria se ele seguir minhas instruções. Estimulo-o
a dizer-me com toda franqueza tudo que ele sabe e que lhe ocorre,
e que não se desvie dessa intenção mesmo se
algumas coisas lhe sejam desagradáveis de dizer. Assimilei
a regra de maneira apropriada?’
Assimilou. O senhor deve acrescentar: ‘mesmo se o que lhe
ocorrer lhe parecer destituído de importância ou de
sentido.’
‘Acrescentarei isso. Logo ele começa a falar e eu
a ouvir. E então? Infiro do que ele me diz a espécie
de impressões, experiências e desejos que reprimiu
porque se defrontou com eles numa época em que seu ego ainda
estava fraco e tinha medo deles em vez de enfrentá-los. Quando
ele tiver aprendido isso de mim, voltará às antigas
situações e com minha ajuda ele se sai melhor. As
limitações às quais seu ego estava vinculado
então desaparecem, e ele fica curado. Está certo?’
Bravo! bravo! vejo mais uma vez que as pessoas serão capazes
de acusar-me de eu haver transformado num analista alguém
que não é médico. O senhor apreendeu tudo de
maneira admirável.
‘Nada mais fiz senão repetir o que ouvi do senhor
– como se fosse algo que eu tivesse aprendido de cor. Seja
como for, não posso formar quadro algum de como deva fazê-lo
e estou inteiramente desorientado para compreender por que uma tarefa
como essa deva levar uma hora por dia durante tantos meses. Afinal
de contas, uma pessoa comum em geral não teve tantas experiências
assim, o que foi reprimido na infância é provavelmente
o mesmo em cada caso.’Quando realmente se pratica a análise
aprendem-se as espécies de coisas além disso. Por
exemplo: o senhor não acharia absolutamente que fosse um
assunto simples deduzir do que o paciente lhe conta as experiências
que ele esqueceu e os impulsos instituais que reprimiu. Ele diz
algo que no começo significa tão pouco para o senhor
como para ele. O senhor terá de resolver contemplar o material
que ele lhe entrega em obediência à regra de uma maneira
bem especial: como se fosse minério, talvez, do qual seu
teor de metal precioso tem de ser extraído por um processo
específico. Estar-se-á também preparado para
trabalhar muitas toneladas de minério que podem conter o
pouco material valioso que se procura. Aqui devemos ter um primeiro
motivo do prolongado caráter do tratamento.
‘Mas como se trabalha com essa matéria-prima –
para manter seu símile?’
Presumindo-se que as observações e associações
do paciente são apenas distorções do que se
procura – alusões, por assim dizer, das quais se tem
de adivinhar o que se acha oculto detrás delas. Numa palavra,
esse material, quer consista em lembranças, associações
ou sonhos, tem primeiramente de ser interpretado. O senhor fará
isso, naturalmente, observando as expectativas que formou quando
ouvia, graças ao seu conhecimento especial.
“’Interpretar!” Que palavra sórdida! Não
gosto do seu som; ele me rouba toda a certeza. Se tudo depender
de minha interpretação, quem pode garantir que eu
interpreto certo? Assim, afinal de contas, tudo é deixado
ao meu capricho?’
Um momento! As coisas não são assim tão más.
Por que o senhor escolhe excluir seus próprios processos
mentais da norma da lei que reconhece nos de outras pessoas? Quando
o senhor atingiu certo grau de autodisciplina e possui certo conhecimento
à sua disposição, suas interpretações
serão independentes de suas características pessoais
e atingirão o alvo. Não estou afirmando que a personalidade
do analista seja uma questão de indiferença para essa
parte da tarefa dele. Uma espécie de agudeza em ouvir o que
está inconsciente e reprimido, que não está
na posse igualmente de todos, tem seu papel a desempenhar. E aqui,
antes de tudo, somos levados à obrigação do
analista de tornar-se capaz, por uma profunda análise dele
próprio, da recepção sem preconceitos do material
analítico. Algo, é verdade, ainda permanece de fora:
alguma coisa comparável à ‘equação
pessoal’ nas observações astronômicas.
Esse fator individual sempre desempenhará um papel mais significativo
na psicanálise do que alhures. Uma pessoa anormal pode tornar-se
um médico cuidadoso; como analista ele será prejudicado
pela sua própria anormalidade de ver os quadros da vida mental
não distorcidos. Vistoser impossível demonstrar a
qualquer um sua própria anormalidade, o consenso geral em
questão de psicologia profunda será particularmente
difícil de ser alcançado. Alguns psicólogos,
na verdade, julgam que ele é inteiramente impossível
e que todo tolo tem o igual direito de externar sua estultície
como sabedoria. Confesso que sou mais otimista a respeito disso.
Afinal de contas, nossas experiências revelam que acordos
razoavelmente satisfatórios podem ser alcançados mesmo
na psicologia. Todo campo de pesquisa tem sua dificuldade particular
que devemos tentar eliminar. E, além disso, mesmo na arte
interpretativa da análise muito existe que pode ser aprendido
como qualquer outro material de estudo: por exemplo, em relação
com o método peculiar de representação indireta
através de símbolos.
‘Bem, não tenho mais qualquer desejo de empreender
um tratamento analítico mesmo na minha imaginação.
Quem pode dizer quais as outras surpresas que eu poderia encontrar?’
O senhor tem toda a razão em abandonar a idéia. Está
vendo como se fariam necessárias muito mais formação
e prática. Quando tiver achado uma interpretação
certa, encontra-se à frente outra tarefa. O senhor tem de
esperar o momento exato no qual pode comunicar sua interpretação
ao paciente com alguma perspectiva de êxito.
‘Como se pode sempre reconhecer o momento certo?’
Isto é uma questão de tato, que pode tornar-se mais
requintada com a experiência. O senhor estará cometendo
grave erro se, num esforço talvez de encurtar a análise,
lançar suas interpretações na cabeça
do paciente logo que as houver encontrado. Dessa maneira o senhor
obterá dele expressões de resistência, rejeição
e indignação, mas não permitirá que
seu ego domine seu material reprimido. A fórmula é:
esperar até que o paciente tenha chegado tão perto
do material reprimido que ele tenha apenas mais alguns passos na
dianteira da interpretação que o senhor propuser.
‘Creio que nunca aprenderia a fazer isso. E se adotar essas
precauções ao fazer minha interpretação,
o que vem depois?’
Será então seu destino fazer uma descoberta para
a qual não estava preparado.
‘E o que pode ser isso?’
Que o senhor se enganou com seu paciente; que não pode contar
no mínimo com a colaboração e a condescendência
dele; que ele está pronto a colocar toda dificuldade possível
em seu trabalho comum – numa palavra, que ele não tem
absolutamente qualquer desejo de ficar curado.
‘Ora veja só! Isso é a coisa mais louca que
o senhor já me contou. E também não acredito
nela. O paciente que está sofrendo tanto, que se queixatão
comovedoramente de seu males, que está fazendo um sacrifício
tão grande para o tratamento – o senhor diz que ele
não tem qualquer desejo de ficar curado! Mas naturalmente
o senhor não está dando um significado exato às
suas palavras.’
Acalme-se! Realmente confirmo o que digo. O que falei foi a verdade
– não toda a verdade, sem dúvida, mas uma parte
muito digna de nota dela. O paciente deseja ser curado – mas
ele também deseja não ser. Seu ego perdeu sua unidade,
e por esse motivo sua vontade também não tem qualquer
unidade. Se isto não fosse assim, ele não seria nenhum
neurótico.
“’Fosse eu sagaz, e não seria o Tell!”
Os derivados do que é reprimido irromperam em seu ego e
ali se estabeleceram; e o ego tem tão pouco controle sobre
as tendências daquela fonte quanto sobre o que é realmente
reprimido, e em geral nada sabe a respeito delas. Esses pacientes,
na realidade, são de uma natureza peculiar e criam dificuldades
com as quais não estamos habituados a lidar. Todas as nossas
instituições sociais são estruturadas para
pessoas com um ego unido e normal, que se pode classificar de bom
ou mau, que ou cumpre sua função ou é inteiramente
eliminado por uma influência esmagadora. Daí a alternativa
jurídica: responsável ou irresponsável. Nenhuma
dessas distinções se aplica a neuróticos. Deve-se
admitir que há dificuldade em adaptar as exigências
sociais a sua condição psicológica. Isto foi
experimentado em larga escala durante a última guerra. Os
neuróticos que burlavam o serviço militar eram simuladores
ou não? Eram e não eram. Se eram tratados como simuladores
e sua doença era tornada altamente incômoda, eles se
recuperavam; se depois de serem ostensivamente restabelecidos eram
enviados de volta às forças armadas, imediatamente
se refugiavam mais uma vez na doença. Nada podia ser feito
com eles. E o mesmo se aplica aos neuróticos na vida civil.
Eles se queixam da doença mas a exploram com todas as suas
forças; e se alguém tenta afastá-la deles,
defendem-na como a proverbial leoa com seus filhotes. Contudo, não
faria sentido algum recriminá-los por essa contradição.
‘O melhor plano, porém, não seria deixar de
administrar a esses doentes tratamento, qualquer que fosse ele,
mas deixá-los entregues à sua sorte? Não penso
que valha a pena despender esforços tão grandes com
cada um deles como o senhor me leva a supor que faz.’
Não posso aprovar sua sugestão. Indubitavelmente
constitui uma atitude mais adequada aceitar as complicações
da vida de preferência a lutar contra elas. Talvez seja verdade
que nem todo neurótico que tratamos valha o sacrifício
de uma análise, mas existem alguns indivíduos muito
valiosostambém entre eles. Devemos fixar nós mesmos
a meta de que o menor número possível de seres humanos
ingresse na vida civilizada com tal aparelho mental defeituoso.
E para essa finalidade devemos reunir muita experiência e
aprender a compreender muitas coisas. Toda análise pode ser
instrutiva e proporcionar-nos um acervo de nova compreensão
inteiramente à parte do valor pessoal do paciente individual.
‘Mas se um impulso volitivo formou-se no paciente que deseja
reter a doença, o primeiro deve ter suas razões e
motivos e ser capaz, de alguma forma, de justificar-se. Mas é
impossível compreender por que alguém deseja estar
doente ou o que poderá obter disso.’
Oh, isso não é tão difícil de compreender.
Penso nos neuróticos de guerra, que não têm
de servir precisamente porque são doentes. Na vida civil
a doença pode ser utilizada como uma tela para encobrir a
incompetência na profissão de alguém ou na concorrência
com outras pessoas, enquanto na família pode servir de meio
para sacrificar os outros membros e extorquir provas do amor destes,
ou para impor a vontade sobre eles. Tudo isso se acha razoavelmente
perto da superfície; nós o resumimos na expressão
‘ganho proveniente da doença’. É curioso,
contudo, que o paciente – isto é, seu ego – nada
saiba de toda a concatenação desses motivos e das
ações que eles envolvem. Combate-se a influência
dessas tendências compelindo-se o ego a tomar conhecimento
delas. Mas há outros motivos, que se acham situados ainda
mais profundamente, para que alguém se apegue à doença,
com os quais não é tão fácil lidar.
Mas esses não podem ser compreendidos sem uma nova viagem
pela teoria psicológica.
‘Queira continuar. Um pouco mais de teoria não fará
diferença alguma agora.’
Quando lhe descrevi a relação entre o ego e o id,
suprimi uma parte importante da teoria do aparelho mental, pois
fomos obrigados a presumir que dentro do próprio ego uma
instância específica tornou-se diferenciada, sendo
ela designada como superego. Esse superego ocupa uma posição
especial entre o ego e o id. Ele pertence ao ego e partilha do seu
alto grau de organização psicológica; mas tem
uma vinculação particularmente íntima com o
id. É de fato um precipitado das primeiras catexias do objeto
do id e é o herdeiro do complexo de Édipo após
o seu falecimento. Esse superego pode confrontar-se com o ego e
tratá-lo como um objeto; e ele muitas vezes o trata com grande
aspereza. É tão importante para o ego continuar em
boas relações com o superego como com o id. Desavenças
entre o ego e o superego são de grande importância
na vida mental. O senhor já terá adivinhado que o
superego é o veículo do fenômeno que chamamos
de consciência. A saúdemental muito depende de o superego
ser normalmente desenvolvido – isto é, de haver-se
tornado suficientemente impessoal. E é isso precisamente
o que não ocorre nos neuróticos cujo complexo de Édipo
não passou pelo processo correto de transformação.
O superego deles ainda se confronta com seu ego como um pai rigoroso
se defronta com um filho: e sua moralidade atua de maneira primitiva
devido ao ego ser punido pelo superego. A doença é
empregada como um instrumento para essa ‘autopunição’,
e os neuróticos têm de comportar-se como se fossem
governados por um sentimento de culpa que, a fim de ser satisfeito,
precisa ser punido pela doença.
‘Isso realmente parece muito misterioso. A coisa mais estranha
a respeito disso é que aparentemente mesmo essa poderosa
força da consciência do paciente não alcança
sua consciência.’
Sim, estamos apenas começando a apreciar a significação
de todas essas circunstâncias importantes. Eis por que minha
descrição estava destinada a ser tão obscura.
Mas agora posso continuar. Descrevemos todas as forças que
se opõem ao trabalho de recuperação como sendo
as ‘resistências’ do paciente. O ganho proveniente
da doença é uma dessas resistências. O ‘sentimento
de culpa inconsciente’ representa a resistência do superego;
é o fator mais poderoso, e o mais temido por nós.
Encontramos ainda outras resistências durante o tratamento.
Se o ego durante o período inicial estabeleceu uma repressão
por medo, então este persiste e se manifesta como uma resistência
se o ego se aproxima do material reprimido. E finalmente, como o
senhor pode imaginar, é provável que haja dificuldades
se se esperar que um processo instintual que tenha seguido um caminho
específico durante décadas de súbito siga uma
nova trilha que acabe de ser aberta para ele. Isso poderia ser denominado
de resistência do id. A luta contra todas essas resistências
constitui nosso principal trabalho durante um tratamento analítico;
a tarefa de fazer interpretações não é
nada em comparação com ela. Mas como resultado dessa
luta e da superação das resistências, o ego
do paciente fica tão alterado e fortalecido que podemos antecipar
com tranqüilidade seu futuro comportamento quando o tratamento
estiver terminado. Por outro lado, pode-se compreender agora por
que são necessários tratamentos tão prolongados.
A extensão do caminho de desenvolvimento e a riqueza do material
não são os fatores decisivos. É mais uma questão
de o caminho estar desimpedido. Um exército pode ficar retido
durante semanas numa extensão de terreno que na época
de paz um trem expresso percorre em poucas horas – se o exército
tiver de superar ali a resistência do inimigo. Essas batalhas
exigem tempo também na vida mental. Infelizmente sou obrigado
a dizer-lhe que todos os esforços no sentido de acelerar
o tratamento analítico de formaapreciável até
agora malograram. A melhor maneira de encurtá-lo parece ser
levá-lo a efeito de acordo com as regras.
‘Se jamais senti desejo de caçar furtivamente em seu
parque de caça e tentar analisar alguém, o que o senhor
me diz sobre as resistências me teria curado disso. Mas o
que dizer da influência pessoal especial que afinal de contas
o senhor próprio admitiu? Isto não entra em ação
contra as resistências?’
Foi bom o senhor me perguntar sobre isso. Essa influência
pessoal é a nossa ama dinâmica mais poderosa. É
o novo elemento que introduzimos na situação e por
meio do qual a tornamos fluida. O teor intelectual de nossas explicações
não pode fazê-lo, pois o paciente, que partilha de
todos os preconceitos do mundo que o cerca, precisa acreditar em
nós tão pouco quanto o fazem os nossos críticos
científicos. O neurótico põe-se a trabalhar
porque tem fé no analista e neste crê porque adquire
uma atitude emocional especial para com a figura do analista. Também
as crianças só acreditam nas pessoas às quais
estão ligadas. Já lhe disse,ver em [[1]] que uso fazemos
dessa influência ‘sugestiva’ particularmente grande.
Não para suprimir os sintomas – isso distingue o método
analítico de outros processos psicoterapêuticos -,
mas como uma força motora a fim de induzir o paciente a superar
suas resistências.
‘Muito bem, e se isso suceder, tudo então não
correrá bem?’
Sim, deve. Mas surge uma complicação inesperada.
Talvez constitua a maior surpresa do analista constatar que a relação
emocional que o paciente adota para com ele é de natureza
bem peculiar. O primeiro médico que tentou uma análise
– não fui eu – defrontou-se com esse fenômeno
e não soube o que fazer dele, pois essa relação
emocional, para expressá-lo de maneira simples, é
da natureza do apaixonar-se. Estranho, não é? Especialmente
quando se leva em conta que o analista nada faz para provocá-la
mas, pelo contrário, antes se mantém à distância
do paciente, falando humanamente, e o cerca de certo grau de reserva
– quando se aprende, além disso, que essa estranha
relação de amor despreza tudo o mais que seja realmente
propício e toda variação quanto a atração
pessoal, idade, sexo ou classe. Esse amor é de natureza realmente
compulsiva. Não que essa característica precise estar
ausente do apaixonar-se espontâneo. Como se sabe, o contrário
ocorre freqüentemente. Mas na situação analítica
surge com inteira regularidade sem haver qualquer explanação
racional para isso. Ter-se-ia pensado que a relação
do paciente com o analista nada mais exigia senão certa dose
de respeito, confiança, gratidão e simpatia humana.
Em vez disso, existe esse apaixonar-se, que, ele próprio,
dá a impressão de ser um fenômeno patológico.‘Eu
teria pensado da mesma maneira que isso seria favorável às
suas finalidades analíticas. Se alguém está
apaixonado, ele é dócil, e tudo fará no mundo
para o bem de outra pessoa.’
Sim. É favorável para começar. Mas quando
esse apaixonar-se se tornou mais profundo, toda a sua natureza vem
à luz, grande parte da qual é incompatível
com a tarefa de análise. O amor do paciente não se
satisfaz com ser obediente; torna-se exigente, exige satisfações
afetuosas e sensuais, exclusivismo, torna-se ciumento e revela cada
vez mais claramente seu lado oposto, sua disposição
de tornar-se hostil e vingativo se não puder alcançar
seus fins. Ao mesmo tempo, como todo o apaixonar-se, expulsa todo
o outro material mental; extingue o interesse pelo tratamento e
recuperação – em suma, não pode haver
dúvida alguma de que tomou o lugar da neurose e que nosso
trabalho teve o resultado de eliminar uma forma de doença
por outra.
‘Isso realmente parece um caso perdido! O que pode ser feito
quanto a isso? A análise teria de ser abandonada. Mas se,
como o senhor diz, a mesma coisa acontece em todos os casos, seja
como for seria impossível levar a efeito qualquer análise.’
Começaremos utilizando a situação a fim de
aprendermos algo dela. O que aprendermos talvez poderá então
ajudar-nos a dominá-la. Não constitui fato extremamente
digno de nota que conseguimos transformar toda neurose, qualquer
que seja seu conteúdo, numa condição de amor
patológico?
Nossa convicção de que uma parte da vida erótica
que tenha sido anormalmente empregada se acha na base das neuroses
deve ser inabalavelmente fortalecida por essa experiência.
Com essa descoberta estamos mais uma vez numa posição
firme e podemos aventurar-nos a tornar esse próprio amor
objeto de análise. E podemos fazer outra observação.
O amor analítico não se manifesta em todos os casos
tão clara e ruidosamente como tentei descrevê-lo. Por
que não? Logo poderemos ver. À medida que as facetas
puramente sensuais e hostis do seu amor tentam revelar-se, a oposição
do paciente a elas é despertada. Ele luta contra elas e tenta
reprimi-las perante nossos próprios olhos. O paciente está
repetindo com o analista, sob a forma de apaixonar-se, experiências
mentais pelas quais já passou antes; ele transferiu para
o analista atitudes mentais que estavam prontas nele e intimamente
associadas com sua neurose. Ele também está repetindo
diante dos nossos olhos suas antigas ações defensivas;
ele gostaria mais de repetir em sua relação com o
analista toda a história daquele período esquecido
de sua vida. Assim, o que ele nos está mostrando é
o núcleo da história íntima de sua vida: ele
o está reproduzindo de forma tangível, como se ele
realmente estivesse acontecendo, em vez de recordar-se dele. Dessa
maneira, o enigma do amortransferencial é solucionado e a
análise pode seguir seu caminho – com a ajuda da nova
situação que lhe parecera uma grande ameaça.
‘Isso é muito engenhoso. E é tão fácil
convencer o paciente de que ele não está apaixonado,
mas somente obrigado a levar à cena uma revivescência
de uma antiga peça?’
Tudo agora depende disso. E toda a habilidade para lidar com a
‘transferência’ é dedicada a ocasioná-la.
Como o senhor está vendo, as exigências da técnica
analítica alcançam seu máximo nesse ponto.
Aqui se podem cometer os erros mais graves ou os maiores êxitos
podem ser registrados. Seria estultície tentar fugir às
dificuldades suprimindo-se ou negligenciando-se a transferência;
qualquer outra coisa mais que se tivesse feito no tratamento não
mereceria o nome de análise. Despachar o paciente logo que
as inconveniências da sua neurose de transferência surgem
não seria mais sensato, e além disso seria covardia.
Seria como se alguém houvesse invocado espíritos e
deles fugisse logo que aparecessem. Algumas vezes, é verdade,
nada mais é possível. Existem casos nos quais não
podemos dominar a transferência desencadeada e a análise
tem de ser interrompida; mas devemos pelo menos ter lutado com os
espíritos maus com o máximo de nossas forças.
Ceder às exigências da transferência, atender
aos desejos do paciente no sentido de satisfação afetuosa
e sensual, é não só com justiça proibido
por considerações morais como também é
inteiramente ineficaz como um método técnico para
alcançar a finalidade da análise. Um neurótico
não pode ser curado por lhe ser permitido reproduzir estereótipos
incorretos e inconscientes que nele estão à mão.
Se nos empenharmos em conciliações com ele mediante
a oferta de satisfações parciais em troca de sua colaboração
ulterior na análise, devemos ter cuidado para não
incidirmos na situação ridícula do clérigo
que devia converter um agente de seguros enfermo. O doente continuou
não convertido mas o clérigo despediu-se segurado.
A única saída possível da situação
de transferência é remontá-la ao passado do
paciente, como ele realmente a experimentou ou como ele a imaginou
através da atividade realizadora de desejos de sua imaginação.
E isto exige do analista muita habilidade, paciência, calma
e abnegação própria.
‘E onde o senhor supõe que o neurótico experimentou
o protótipo do seu amor transferencial?’
Em sua infância: em geral, em sua relação com
um dos seus pais. O senhor deve lembrar-se da importância
que tivemos de atribuir a esses primeiros laços emocionais.
Assim, aqui o círculo se fecha.‘O senhor finalmente
acabou? Estou-me sentindo um pouco perplexo com tudo o que ouvi
do senhor. Queira dizer-me apenas mais uma coisa: como e onde se
pode aprender o que é necessário para praticar-se
a análise?’
No momento existem dois institutos nos quais se ministra instrução
sobre psicanálise. O primeiro foi fundado em Berlim pelo
Dr. Max Eitingon, que é membro da Sociedade local. O segundo
é mantido pela Sociedade Psicanalítica de Viena às
suas próprias expensas e com considerável sacrifício.
O papel desempenhado pelas autoridades limita-se, no presente, às
muitas dificuldades que antepõem ao novo empreendimento.
Um terceiro instituto de formação está sendo
agora inaugurado em Londres pela Sociedade dessa cidade, sob a direção
do Dr. Ernest Jones. Nesses institutos os próprios candidatos
são submetidos à análise, recebem instrução
teórica mediante conferências sobre todos os assuntos
que são importantes para eles, e desfrutam da supervisão
de analistas mais velhos e mais experimentados quando lhes é
permitido fazer suas primeiras experiências com casos relativamente
brandos. Calcula-se um período de cerca de dois anos para
essa formação. Mesmo após esse período,
naturalmente, o candidato é apenas um principiante e não
ainda um mestre. O que ainda se necessita deve ser adquirido pela
prática e por uma troca de idéias nas sociedades psicanalíticas
nas quais membros jovens e velhos se reúnem. O preparo para
a atividade analítica de modo algum é fácil
e simples. O trabalho é árduo, grande a responsabilidade.
Mas qualquer um que tenha sido analisado, que tenha dominado o que
pode ser ensinado em nossos dias sobre a psicologia do inconsciente,
que esteja familiarizado com a ciência da vida sexual, que
tenha aprendido a delicada técnica da psicanálise,
a arte da interpretação, de combater resistências
e de lidar com a transferência – qualquer um que tenha
realizado tudo isso não é mais um leigo no campo da
psicanálise. Ele é capaz de empreender o tratamento
de perturbações neuróticas e ainda poderá
com o tempo alcançar nesse campo o que quer que se possa
exigir dessa forma de terapia.
VI
‘O senhor despendeu grande dose de esforço ao mostrar-me
o que é a psicanálise e que espécie de conhecimento
se faz necessário a fim de praticá-la com certa perspectiva
de êxito. Muito bem. Ouvi-lo não pode ter-me causado
mal algum. Mas não sei que influência o senhor espera
que suas explicações tenham em meu julgamento. Vejo
diante de mim um caso que nada tem de inusitado a esse respeito.
As neuroses são uma espécie específica de doença
e a análise é um método específico de
tratá-las – um ramo especializado da medicina. Constitui
regra em outros casos, bem como para um médico que tenha
escolhido um ramo especial da medicina, não se satisfazer
com a educação que é confirmada pelo seu diploma:
particularmente se ele pretende fixar-se numa cidade razoavelmente
grande, uma cidade que, somente ela, possa oferecer um meio de vida
a especialistas. Qualquer um que deseje ser cirurgião tenta
trabalhar por alguns anos numa clínica cirúrgica,
e de forma semelhante o mesmo se verifica com oculistas, laringologistas,
e assim por diante – para não dizer nada de psiquiatras,
que talvez jamais sejam capazes de afastar-se de uma instituição
ou um sanatório do Estado. E o mesmo acontecerá no
caso de psicanalistas: qualquer um que se resolva em favor desse
novo ramo especializado da medicina, quando concluídos seus
estudos, fará os dois anos de especialização
que o senhor mencionou num instituto de formação,
se realmente este exigir tanto tempo. Ele também compreenderá
depois que lhe será vantajoso manter contato com seus colegas
numa sociedade psicanalítica, e tudo correrá bem.
Não posso ver onde haja lugar nisso para a questão
da análise leiga.’
Um médico que faz o que o senhor prometeu em seu nome será
bem acolhido por todos nós. Quatro quintos daqueles que eu
reconheço como meus alunos são, de qualquer maneira,
médicos. Mas permita-me ressaltar-lhe como as relações
de médicos com a análise se desenvolveram realmente
e como provavelmente continuarão a desenvolver-se. Os médicos
não têm qualquer reivindicação histórica
pela posse única da análise. Pelo contrário,
até recentemente fizemos face à mesma com tudo aquilo
que pudesse prejudicá-la, desde o ridículo mais frívolo
à calúnia mais grave. O senhor responderá com
razão que isso pertence ao passado e não precisa afetar
o futuro. Concordo, mas temo que o futuro será diferente
do que o senhor previu.
Permita-me dar à palavra ‘charlatão’
o significado que ela deve ter em vez do significado jurídico.
De acordo com a lei, charlatão é qualquer um que trata
pacientes sem possuir um diploma oficial que prove que ele é
medico. Eu preferiria outra definição: charlatão
é todo aquele que efetua um tratamento sem possuir o conhecimento
e a capacidade necessários para tanto. Firmando-me nessa
definição, aventuro-me a afirmar que – não
somente nos países europeus – os médicos formam
um contingente preponderante de charlatões na análise.
Eles com grande freqüência praticam o tratamento analítico
sem o terem aprendido e sem compreendê-lo.
De nada vale o senhor argumentar que isso é inconsciente
e que não pode acreditar que os médicos sejam capazes
disso; que afinal de contas um médico sabe que um diploma
de médico não é uma carta de corso e que um
paciente não é um fora-da-lei; e que se deve sempre
admitir que um médico está agindo de boa fé
mesmo que talvez esteja laborando em erro.
Os fatos ficam; esperaremos que possam ser explicados como o senhor
pensa. Tentarei explicar-lhe como se torna possível a um
médico agir em relação com a psicanálise
de uma forma que ele cuidadosamente evitaria em todos os outros
campos.
A primeira consideração é que na escola de
medicina um médico recebe uma formação que
é mais ou menos o oposto do que ele necessitaria como preparo
para a psicanálise. Sua atenção foi dirigida
para fatos objetivamente verificáveis de anatomia, de física
e de química, de cuja apreciação correta e
influência adequada depende o êxito do tratamento médico.
O problema da vida é trazido para seu campo de visão
até onde nos tenha sido explicado pelo jogo das forças
que também podem ser observadas na natureza inanimada. Seu
interesse não é despertado no lado mental dos fenômenos
vitais; a medicina não se preocupa com o estudo das funções
intelectuais superiores, que se situa na esfera de outra faculdade.
Supõe-se que só a psiquiatria lide com as perturbações
das funções mentais; mas sabemos de que maneira e
com quais finalidades ela o faz. Ela procura os determinantes somáticos
das perturbações mentais e os trata como outras causas
de doença.
A psiquiatria tem razão de agir dessa forma e a educação
médica é claramente excelente. Se for descrita como
unilateral, deve-se primeiro descobrir o ponto de vista a partir
do qual se está transformando essa característica
numa censura. Em si toda ciência é unilateral. Tem
de ser assim, visto que ela se restringe a assuntos, pontos de vista
e métodos específicos. É uma insensatez, na
qual eu não tomaria parte, lançar uma ciência
contra a outra. Afinal de contas, a física não diminui
o valor da química; ela não pode ocupar seu lugar
mas, por outro lado, não pode ser substituída por
ela. A psicanálise é, por certo, bem particularmente
unilateral, por ser a ciência do inconsciente mental. Não
devemos, portanto, contestar às ciências médicas
seu direito de serem unilaterais.
Só encontraremos o ponto de vista que estamos procurando
se passarmos da medicina científica para a terapêutica
prática. Uma pessoa doente é um organismo complicado.
Ela poderá lembrar-nos que até mesmo os fenômenos
mentais, que são tão difíceis de apreender,
não devem ser apagados do quadro da vida. Os neuróticos,
realmente, constituem uma complicação indesejável,
um estorvo tanto para a terapêutica como para a jurisprudência
e o serviço militar. Mas existem e são uma preocupação
particular da medicina. A educação médica,
contudo, nada faz, literalmente nada, para compreendê-los
e tratá-los. Em vista da estreita ligação entre
as coisas que distinguimos como físicas e mentais, podemos
antecipar o dia em que os caminhos do conhecimento e, esperemos,
da influência serão desbravados, conduzindo da biologia
e da química orgânicas para o campo de fenômenos
neuróticos. Esse dia ainda parece distante, e no momento
essas doenças nos são inacessíveis pela direção
da medicina.
Seria tolerável se a educação médica
apenas deixasse de proporcionar aos médicos orientação
no campo das neuroses. Mas ela faz mais do que isso: dá-lhes
uma atitude falsa e prejudicial. Os médicos cujo interesse
não foi despertado pelos fatores psíquicos da vida
estão mais que prontos para formar uma estimativa deficiente
dos mesmos e ridicularizá-los como não científicos.
Por essa razão, são incapazes de aceitar algo de realmente
sério que tenha a ver com eles e não reconhecem as
obrigações provenientes deles. Portanto, caem na falta
de respeito do leigo pela pesquisa psicológica e tornam sua
própria tarefa fácil para eles próprios. –
Sem dúvida os neuróticos têm de ser tratados,
visto serem pessoas enfermas e procurarem o médico, devendo-se
estar sempre pronto para fazer-se experiência com algo novo.
Mas por que arcar com o fardo de uma preparação tediosa?
Nós nos arranjaremos muito bem; quem pode dizer se o que
ensinam nos institutos analíticos é de alguma valia?
– Quanto menos tais médicos compreenderem do assunto,
mais aventurosos se tornam. Só um homem que realmente sabe
é modesto, pois ele sabe quão insuficiente é
o seu conhecimento.
A comparação que o senhor apresentou para tranqüilizar-me,
entre a especialização na análise e em outros
ramos da medicina, não é, então, aplicável.
Para a cirurgia, a oftalmologia, e assim por diante, a própria
escola de medicina oferece uma oportunidade de educação
ulterior. Os institutos analíticos são em pequeno
número, recentes e destituídos de autoridade. As escolas
de medicina não os reconheceram e deles não tomam
qualquer conhecimento. O jovem médico, que teve de confiar
tanto em seus mestresque pouca ocasião teve de educar seu
julgamento, prazerosamente aproveita o momento propício para
desempenhar o papel de crítico por exceção
num campo no qual ainda não há qualquer autoridade
reconhecida.
Existem também outras coisas que favorecem seu apreciamento
como um charlatão analítico. Se ele tentasse efetuar
operações na vista sem suficiente preparo, o fracasso
de suas extrações de cataratas e iridectomias e a
ausência de pacientes logo poriam termo à sua arriscada
empresa. A prática de análise é relativamente
segura para ele. O público é estragado pelo resultado
médio bem-sucedido de operações na vista e
espera do cirurgião a cura. Mas se um ‘especialista
em nervos’ deixar de restaurar seus pacientes, ninguém
fica surpreendido. As pessoas não foram inutilizadas por
êxitos na terapia das neuroses; o especialista em nervos pelo
menos ‘muito se preocupou com elas’. Realmente, não
há muito que possa ser feito; a natureza deve ajudar, ou
o tempo. Com as mulheres temos primeiro a menstruação,
depois o casamento e posteriormente a menopausa. Finalmente a morte
constitui uma verdadeira ajuda. Além disso, o que o analista
médico tem feito com seu paciente neurótico é
tão insignificante que nenhuma censura lhe pode ser feita.
Ele não tem feito uso de quaisquer instrumentos ou medicamentos;
ele tem apenas conversado com ele e tentado persuadi-lo ou dissuadi-lo
de alguma coisa. Certamente isto não pode causar mal algum,
especialmente se ele evita abordar assuntos aflitivos ou inquietantes.
O analista médico, que tem evitado qualquer ensinamento rigoroso,
sem dúvida não terá omitido a tentativa de
aperfeiçoar a análise, de extrair-lhe as presas venenosas
e de torná-la agradável para o paciente. E será
prudente que ele pare por aí, pois se ele realmente se aventurar
a invocar resistências e depois não souber fazer-lhes
face, poderá realmente tornar-se impopular.
A honestidade obriga-me a admitir que a atividade de um analista
não formado causa menos mal aos seus pacientes do que a de
um cirurgião inábil. O possível dano limita-se
ao fato de o paciente ter sido levado a uma despesa inútil
e de ter suas possibilidades de recuperação eliminadas
ou diminuídas. Além disso, a reputação
da terapia analítica foi reduzida. Tudo isso é muito
indesejável, mas não tem comparação
alguma com os perigos que advêm do bisturi de um charlatão
cirúrgico. Segundo me parece, não se devem temer agravamentos
severos ou permanentes de uma condição patológica,
mesmo com um emprego não especializado da análise.
Em confronto com os traumas da vida que provocaram a doença,
um pouco de imperícia por parte do médico não
tem qualquer importância. Simplesmente ocorre que a tentativa
inadequada de curar não causou bem algum ao paciente.‘Ouvi
seu relato sobre o charlatão médico na análise
sem interrompê-lo, embora formasse a impressão de que
o senhor se acha dominado por uma hostilidade contra a profissão
médica, para cuja explicação histórica
o senhor mesmo apontou o caminho. Mas admitirei uma única
coisa: se as análises têm de ser levadas a efeito,
isto deve ser efetuado por pessoas que foram formadas inteiramente
para esse mister. E o senhor não pensa que com o tempo os
médicos que se dediquem à análise tudo farão
para obter essa formação?’
Temo que não. Enquanto a atitude da escola médica
em relação ao instituto de formação
analítica continuar inalterada, os médicos acharão
a tentação de tornarem as coisas mais fáceis
para eles próprios grande demais.
‘Mas parece que o senhor fica sistematicamente a fugir de
qualquer pronunciamento direto sobre a questão da análise
leiga. O que penso agora é que, em vista de ser impossível
manter uma observação dos médicos que querem
analisar, o senhor está propondo, como vingança, por
assim dizer, puni-los, privando-os do monopólio da análise
e abrindo de par em par as portas dessa atividade médica
também a leigos.’
Não posso dizer se o senhor adivinhou meus motivos de maneira
correta. Talvez eu possa mais adiante apresentar-lhe provas de uma
atitude menos parcial. Mas ponho ênfase na exigência
de quem ninguém deve praticar a análise se não
tiver adquirido o direito de fazê-lo através de uma
formação específica. Se essa pessoa é
ou não um médico, a mim me parece sem importância.
‘Então que propostas definitivas tem a fazer?’
Ainda não fui até esse ponto e não poderei
dizer se chegarei lá. Gostaria de examinar outra questão
com o senhor, e antes de tudo aflorar um ponto especial. Diz-se
que as autoridades, por instigação da profissão
médica, desejam proibir inteiramente a prática da
análise por leigos. Tal proibição também
afetaria os membros não-médicos da Sociedade Psicanalítica,
que têm desfrutado de excelente formação e se
aperfeiçoado grandemente pela prática. Se a proibição
fosse efetivada, nós nos encontraríamos numa posição
na qual grande número de pessoas ficariam impedidas de executar
uma atividade que podemos com segurança nos sentir convictos
de que podem efetuar muito bem, ao passo que a mesma atividade está
franqueada a outras pessoas para as quais não há qualquer
garantia semelhante. Essa não é precisamente a espécie
de resultado ao qual a legislação deva conduzir. Contudo,
esse problema especial não é muito importante nem
muito difícil de solucionar. Diz respeito apenas a um pequeno
número de pessoas, que não pode ser seriamente prejudicado.
Elas provavelmente emigrarão para aAlemanha, onde nenhuma
legislação as impedirá de encontrar reconhecimento
pela sua proficiência. Se se desejar poupá-las disto
e abrandar a severidade da lei, isto facilmente pode ser feito com
base em alguns precedentes bem conhecidos. Sob a monarquia austríaca
com freqüência acontecia ser dada permissão a
notórios charlatães, ad personam [pessoalmente], para
levarem a efeito atividades médicas em certos campos, porque
as pessoas estavam convencidas da verdadeira capacidade deles. Os
interessados eram na sua maior parte curandeiros camponeses, e sua
recomendação parece ter sido feita regularmente por
um dos arquiduques que outrora eram tão numerosos; mas deve
ser possível que isso também seja feito no caso de
citadinos e com base em uma garantia diferente e meramente técnica.
Essa proibição teria efeitos mais importantes sobre
o instituto de formação analítica de Viena,
que daí por diante seria incapaz de aceitar quaisquer candidatos,
para formação, de círculos não médicos.
Assim, mais uma vez em nosso país uma linha de atividade
intelectual seria suprimida, a qual se permite que se desenvolva
livremente em outras partes. Sou a última pessoa a reivindicar
qualquer competência para julgar leis e regulamentos. Mas
posso compreender que dar ênfase à nossa lei sobre
charlatanismo não leva em direção à
abordagem das condições na Alemanha a que tanto se
visa hoje, e que a aplicação dessa lei ao caso da
psicanálise traz em si algo de anacrônico, visto que
na época de sua promulgação ainda não
havia essa coisa que se chama análise e que a natureza peculiar
das doenças neuróticas ainda não era reconhecida.
Agora chego a uma questão cujo exame me parece mais importante.
A prática da psicanálise é um assunto que deve,
em geral, ficar sujeito à interferência oficial, ou
seria mais conveniente deixá-lo seguir seu desenvolvimento
natural? Certamente não chegarei a qualquer decisão
sobre esse ponto aqui e agora, mas tomarei a liberdade de pôr
o problema diante do senhor para sua consideração.
Em nosso país desde antigamente um verdadeiro furor prohibendi
[paixão por proibições] tem constituído
a regra, uma tendência a manter as pessoas sob tutela, a interferir
e a proibir, o que, como todos sabemos, não tem dado frutos
particularmente bons. Em nossa nova Áustria republicana,
parece, as coisas ainda não mudaram muito. Imagino que o
senhor terá algo de importante a dizer para a solução
do caso da psicanálise ora em consideração
por nós; não sei se o senhor tem o desejo ou a influência
com que opor-se a essas tendências burocráticas. Seja
como for, não lhe pouparei meus pensamentos desautorizados
sobre o assunto. Em minha opinião, uma pletora de regularmentos
e proibições prejudica a autoridade da lei. Pode-se
observar que onde há somente poucas proibições
elas são cuidadosamente observadas, mas onde alguém
é acompanhado de proibições a cada passo, esse
alguém se sente realmente tentado a desprezá-las.
Além disso, não significa que alguém seja realmente
um anarquista se estiver preparado para compreender que as leis
e os regulamentos não podem, a partir de sua origem, alegar
possuir o atributo de serem sagrados e não infringíveis,
que são muitas vezes inadequadamente elaborados e ofendem
nosso sentimento de justiça, ou o farão após
certo tempo, e que, em vista da lerdeza das autoridades, amiúde
não existe outro meio de corrigir tais leis impróprias
senão violando-as ousadamente. Além disso, se se deseja
manter o respeito pelas leis e regulamentos é aconselhável
nada promulgar onde não pode facilmente ser mantida uma vigilância
no sentido de serem obedecidos ou transgredidos. Grande parte do
que citei acima sobre a prática da análise por médicos
poderia ser repetido aqui no tocante à análise autêntica
por leigos que a lei vem procurando suprimir. O curso de uma análise
é muito modesto, não empregando nem medicamentos nem
instrumentos, e consiste apenas em conversa e numa troca de informações;
não será fácil provar que um leigo esteja praticando
‘análise’, se ele afirmar que está simplesmente
dando estímulo e explicações e tentando estabelecer
uma influência humana saudável sobre pessoas que estão
à procura de assistência mental. Por certo não
seria possível proibir isso meramente porque os médicos
algumas vezes fazem a mesma coisa. Nos países de língua
inglesa as práticas da Ciência Cristã tornaram-se
muito difundidas: uma espécie de negação dialética
dos males da vida, baseada num apelo às doutrinas da religião
cristã. Não hesito em afirmar que esse procedimento
representa uma aberração lamentável do espírito
humano; mas quem nos Estados Unidos ou na Inglaterra sonharia em
proibi-lo e torná-lo punível? As autoridades estão
assim tão certas do caminho correto para a salvação
que elas se aventuram a impedir que cada um tente ‘ser salvo
segundo a sua própria maneira’. E admitindo-se que
muitas pessoas, se entregues a si próprias, correm para o
perigo e fracassam, não seria melhor que as autoridades marcassem
cuidadosamente os limites das regiões que devem ser consideradas
como proibidas, e quanto ao restante, até onde possível,
permitir que os seres humanos sejam educados pela experiência
e influência mútua? A psicanálise é algo
tão novo no mundo, a massa da humanidade é tão
pouco instruída sobre ela, a atitude da ciência oficial
paracom ela é ainda tão vacilante, que me parece precipitado
intervir em seu desenvolvimento com regulamentos legislativos. Deixemos
que os próprios pacientes descubram que lhes é prejudicial
procurar assistência mental junto a pessoas que não
aprenderam a proporcioná-la. Se explicarmos isto a eles e
os advertirmos contra tal fato, teremos poupado a nós mesmos
a necessidade de proibi-lo. Nas principais estradas da Itália
as torres de cabos de alta-tensão trazem a inscrição
sucinta e impressionante: ‘Chi tocca, muore [Quem tocar, morre].’
Isso está perfeitamente calculado para regular o comportamento
de transeuntes em relação a quaisquer fios que estejam
pendentes. Os avisos alemães correspondentes exibem uma verbosidade
desnecessária e ofensiva: ‘Das Berühren der Leitungsdrähte
ist, weil lebensgefährlich, strengstens verboten [Tocar as
linhas de transmissão é, por ser perigoso à
vida, rigorosamente proibido].’ Qualquer um que tenha amor
à vida fará a proibição para si mesmo;
e qualquer um que deseja matar-se dessa maneira não pedirá
permissão.
‘Mas há casos que podem ser citados como precedentes
legais contra a permissão da análise leiga; quero
dizer, a proibição de leigos praticarem o hipnotismo
e a proibição recentemente baixada contra a realização
de sessões espíritas ou a fundação de
sociedades espíritas.’
Não posso dizer que seja admirador dessas medidas. A segunda
é uma invasão indisfarçada de supervisão
policial em detrimento da liberdade intelectual. Estou acima da
suspeição de ter muita crença naquilo que se
conhece como ‘fenômenos ocultos’ ou de sentir
qualquer desejo de que sejam reconhecidos. Mas proibições
como essas não sufocarão o interesse das pessoas por
esse mundo supostamente misterioso. Poderão, pelo contrário,
ter causado grande dano e ter fechado a porta a uma curiosidade
imparcial que poderia haver chegado a um julgamento que nos teria
libertado dessas possibilidades vexatórias. Mais uma vez,
contudo, isso somente se aplica à Áustria. Em outros
países, pesquisas ‘parapsíquicas’ não
encontram quaisquer obstáculos legais. O caso do hipnotismo
é algo diferente do da análise. O hipnotismo é
a evocação de um estado mental anormal e é
utilizado por leigos, nos dias que correm, somente com a finalidade
de espetáculos públicos. Se a terapia hipnótica
tivesse mantido seus inícios muito promissores, ter-se-ia
chegado a uma posição semelhante à da análise.
E incidentalmente a história do hipnotismo oferece um precedente
para o da análise em outra direção. Quando
eu era um jovem conferencista de neuropatologia, os médicos
invectivavam ardorosamente o hipnotismo, declaravam que ele era
um logro, um logro do demônio e um procedimento altamente
perigoso. Hoje eles monopolizaram esse mesmo hipnotismo e dele fazem
uso, sem hesitações, como um método de exame;
para alguns especialistas de nervos ele ainda constitui seu principal
instrumento terapêutico.
Mas já lhe disse que não tenho qualquer intenção
de fazer propostas que se baseiem na decisão quanto a se
o controle legal ou o deixar que as coisas sigam o seu curso deva
ser preferido em matéria de análise. Sei que isto
é uma questão de princípio, sendo que sobre
a resposta a ela as inclinações das pessoas de autoridade
terão mais influência do que argumentos. Já
estabeleci o que me parece falar em favor de uma política
de laissez faire. Se a outra decisão for adotada –
para uma política de intervenção ativa –
então parece que em qualquer caso uma medida imperfeita e
injusta de proibir implacavelmente a análise por não-médicos
será um resultado insuficiente. Algo mais terá de
ser considerado nesse caso: terão de ser lançadas
condições sob as quais a prática da análise
será permitida a todos aqueles que procurem dela fazer uso,
terá de ser estabelecida uma autoridade da qual se possa
aprender o que é a análise e que espécie de
preparo se faz necessário para isso, e as possibilidades
de instrução em análise terão de ser
estimuladas. Devemos portanto, ou deixar as coisas em paz ou estabelecer
ordem e clareza; não devemos precipitar-nos numa situação
complicada com uma única proibição isolada
proveniente mecanicamente de um regulamento que se tornou inadequado.
VII
‘Sim, mas os médicos! os médicos! Não
posso induzi-lo a penetrar no verdadeiro tema de nossas conversações.
O senhor ainda continua a esquivar-se de mim. Trata-se de se devemos
ou não dar aos médicos o direito de praticarem a análise
– e isto em nada me afeta, depois de haverem preenchido certas
condições. A maioria dos médicos não
consiste em charlatães em análise como o senhor os
representou. O senhor mesmo afirma que a grande maioria dos seus
alunos e seguidores são médicos. Chegou ao meu conhecimento
que eles estão longe de partilhar seu ponto de vista sobre
a questão da análise leiga. Sem dúvida posso
presumir que seu alunos concordam com suas exigências no sentido
de suficiente preparo e assim por diante; e contudo esses alunos
julgam coerente vedar a prática da análise a leigos.
É isso mesmo? e em caso afirmativo, como o senhor o explica?
Estou vendo que o senhor está bem informado. Sim, de fato.
Nem todos, é verdade, mas boa proporção dos
meus colegas não concorda comigo em relação
a esse ponto, sendo favoráveis a que os médicos tenham
o direito exclusivo ao tratamento analítico de neuróticos.
Isto lhe mostrará que divergências de opinião
são permitidas mesmo em nosso campo. O partido que eu tomo
é bem conhecido e a contradição sobre o assunto
da análise leiga não interfere em nossa boa compreensão.
Como posso explicar-lhe a atitude desses meus alunos? Não
sei ao certo; penso que deve ser a força do sentimento profissional.
O curso do desenvolvimento deles tem sido diferente do meu, eles
ainda não se sentem à vontade em seu isolamento dos
colegas, gostariam de ser aceitos pela ‘profissão’
como tendo plenos direitos, e estão preparados, em troca,
por essa tolerância, para fazer um sacrifício num ponto
cuja importância vital não lhes é evidente.
Talvez possa ser de outra forma; imputar motivos de concorrência
a eles seria não somente acusá-los de sentimentos
baixos, mas também atribuir-lhes uma estranha miopia. Estão
sempre prontos a introduzir outros médicos na análise,
e de um ponto de vista material deve ser-lhes indiferente ter de
partilhar os pacientes disponíveis com colegas médicos
ou com leigos. Mas algo diferente provavelmente desempenha seu papel.
Esses meus alunos podem ser influenciados por certos fatores que
garantem a um médico indubitável vantagem sobre um
leigo na prática analítica.
Garantir-lhe uma vantagem? Aí está. Então
finalmente o senhor está admitindo a vantagem? Isto deve
resolver a questão.’ Não me é difícil
admiti-lo, o que poderá revelar-lhe que não tenho
assim um preconceito tão arraigado como o senhor supõe.
Deixei de mencionar essas coisas porque sua discussão mais
uma vez tornaria necessárias considerações
teóricas.
‘Em que está pensando agora?’
Primeiramente há a questão do diagnóstico.
Quando se submete à análise um paciente que sofre
do que se descreve como perturbações nervosas, deseja-se
de antemão estar certo – até agora, naturalmente,
conforme a certeza possa ser alcançada – de que ele
se presta a essa espécie de tratamento, de que se pode ajudá-lo
por esse método. Isso, contudo, é o caso apenas se
ele realmente tiver uma neurose.
‘Eu teria pensado que isso seria reconhecível a partir
dos fenômenos, dos sintomas dos quais ele se queixa.’
É aí que surge uma nova complicação.
Ela nem sempre pode ser reconhecida como uma certeza absoluta. O
paciente poderá exibir o quadro externo de uma neurose e,
contudo, poderá ser algo mais – o início de
uma doença mental incurável ou a fase preliminar de
um processo destrutivo no cérebro. A distinção
– o diagnóstico diferencial – nem sempre é
fácil e nem pode ser feita imediatamente em cada fase. A
responsabilidade de tal decisão só pode, naturalmente,
ser empreendida por um médico. Como eu disse, nem sempre
é fácil para ele. A doença pode ter uma aparência
inocente por considerável tempo, até que por fim,
afinal de contas, apresenta o seu mau caráter. Na realidade,
constitui um dos temores comuns dos neuróticos que eles venham
a tornar-se insanos. Contudo, se um médico se tiver enganado
por algum tempo com um caso dessa espécie ou tiver estado
incerto a respeito dele, nenhum mal foi provocado e nada de desnecessário
foi feito. Nem realmente o tratamento analítico desse caso
teria causado qualquer dano, embora tivesse sido exposto como um
desperdício desnecessário. E além disso certamente
haveria muitas pessoas que culpariam a análise pelo infeliz
resultado. Injustamente, sem dúvida, mas tais ocasiões
devem ser evitadas.
‘Mas isso parece um caso perdido. Atinge as raízes
de tudo o que o senhor me disse sobre a natureza e a origem de uma
neurose.’
De modo algum. Simplesmente conforma mais uma vez o fato de que
os neuróticos são uma praga e um estorvo para todos
os interessados – inclusive os analistas. Mas talvez eu elucide
sua confusão se enunciar minha nova informação
em termos mais corretos. Provavelmente seria mais correto dizer
dos casos com os quais estamos agora lidando que eles desenvolveram
realmente uma neurose, não sendo ela, no entanto, psicogênica
mas somatogênica – que suas causas não são
mentais, mas físicas. O senhor compreende? ‘Sem dúvida,
compreendo. Mas não posso harmonizar isso com a outra faceta,
a psicológica.’
Isso pode ser resolvido, contudo, se se tiver em mente as complexidades
da substância viva. Em que achamos a essência de uma
neurose? No fato de que o ego, a organização superior
do aparelho mental (elevada através da influência do
mundo externo), não é capaz de cumprir com sua função
de mediador entre o id e a realidade, de que na sua debilidade ela
recua de certas partes instituais do id e, a fim de compensar isto,
tem de aturar as conseqüências de sua renúncia
sob a forma de restrições, sintomas e formações
reativas malsucedidas.
Uma debilidade do ego dessa espécie é encontrada
em todos nós na infância e eis por que as experiências
dos primeiros anos da infância são de importância
tão grande para a vida ulterior. Sob o fardo extraordinário
desse período da infância – temos em poucos anos
de abarcar a enorme distância de desenvolvimento entre os
homens primitivos da idade da pedra e os participantes da civilização
contemporânea, e, ao mesmo tempo e em particular, temos de
desviar os impulsos instituais do período sexual inicial
-, sob esse fardo, portanto, nosso ego procura refúgio na
repressão e fica exposto a uma neurose da infância,
cujo precipitado ele carrega consigo até a maturidade como
uma disposição a uma doença nervosa ulterior.
Tudo agora depende de como o organismo em crescimento é tratado
pelo destino. Se a vida tornar-se muito árdua, se o abismo
entre reivindicações instituais e as exigências
da realidade tornar-se grande demais, o ego poderá falhar
em seus esforços para reconciliar os dois, e mais prontamente,
quanto mais for inibido pela disposição trazida por
ele na infância. O processo de repressão é então
repetido, os instintos separam-se violentamente do domínio
do ego, encontram suas satisfações substitutivas pelos
caminhos da regressão e o pobre ego tornou-se desamparadamente
neurótico.
Apeguemo-nos firmemente apenas a isto: o ponto nodal e o pivô
de toda a situação é a força relativa
da organização do ego. Acharemos então fácil
concluir nosso levantamento etiológico. Como o que pode ser
denominado de causas normais da doença neurótica,
já conhecemos a debilidade do ego infantil, a tarefa de lidar
com os primeiros impulsos sexuais e os efeitos das experiências
mais ou menos fortuitas da infância. Não é possível,
contudo, que ainda outros fatores desempenhem seu papel, proveniente
da época anterior ao início da vida da criança?
Por exemplo, uma força e insubordinação inatas
da vida instintual no id, que desde o começo atribuem ao
ego tarefas por demais árduas para ele? Ou uma debilidade
de desenvolvimento especial do ego devida a razões desconhecidas?
Tais fatores devem, naturalmente,adquirir uma importância
etiológica, em alguns casos transcendente. Invariavelmente
temos de lidar com a força instintual do id; se ela se tiver
desenvolvido de forma excessiva, as perspectivas de nossa terapia
são precárias. Ainda sabemos muito pouco a respeito
das causas da uma inibição de desenvolvimento do ego.
Esses então seriam os casos de neurose com uma base essencialmente
constitucional. Sem alguns de tais fatores favoráveis constitucionais
e congênitos uma neurose, sem dúvida, dificilmente
pode ocorrer.
Mas se a relativa debilidade do ego for o fator decisivo para a
gênese de uma neurose, também deve ser possível
que uma doença física ulterior produza uma neurose,
contanto que ela possa acarretar um enfraquecimento do ego. E isto,
mais uma vez, é verificado muito amiúde. Uma perturbação
física dessa espécie pode afetar a vida instintual
no id e aumentar a força dos instintos além do limite
até o qual o ego é capaz de lidar com eles. O modelo
normal de tais processos talvez seja a alteração,
nas mulheres, causada pelos distúrbios da menstruação
e da menopausa. Ou ainda, uma doença somática geral,
na realidade uma doença orgânica do órgão
central nervoso, poderá atacar as condições
nutritivas do aparelho mental e compeli-lo a reduzir seu funcionamento
e paralisar suas operações mais delicadas, uma das
quais é a manutenção da organização
do ego. Em todos esses casos surge aproximadamente o mesmo quadro
da neurose; esta tem sempre o mesmo mecanismo psicológico,
mas, como vemos, uma etiologia mais variada e muitas vezes muito
complexa.
‘O senhor agora está me agradando mais. Finalmente
começou a falar como médico. E agora espero que o
senhor admita que um assunto tão complicado como uma neurose
só possa ser manejado por um médico.’
Temo que o senhor esteja indo além do alvo. O que vimos
examinando era um ponto de patologia, aquilo em que estamos interessados
na análise é um procedimento terapêutico. Admito
– não, insisto – que em todo caso que esteja
em consideração para análise o diagnóstico
será estabelecido em primeiro lugar pelo médico. A
maior parte das neuroses que nos ocupam é felizmente de natureza
psicogênica e não dá motivo para suspeitas patológicas.
Uma vez que o médico tenha firmado isto, pode confiantemente
passar o tratamento a um analista leigo. Em nossas sociedades analíticas
as coisas sempre foram arranjadas dessa maneira. Graças ao
estreito contato entre os membros médicos e não-médicos,
erros tais que pudessem ser temidos foram inteiramente evitados.
Há uma contingência ulterior, aliás, na qual
o analista tem de pedir a ajuda do médico. No curso de um
tratamento analítico, sintomas – na maior parte das
vezes físicos – poderão surgir, havendodúvida
se devem ser considerados como pertencentes à neurose ou
se devem ser relacionados como uma doença orgânica
independente que interveio. A decisão sobre esse ponto deve,
mais uma vez, ser deixada ao médico.
‘De modo que mesmo durante o curso de uma análise
um analista leigo não pode passar sem um médico. Um
novo argumento contra sua aptidão.’
Não. Nenhum argumento contra analistas leigos pode ser arquitetado
a partir dessa possibilidade, pois em tais circunstâncias
um analista médico não agiria de maneira diferente.
‘Não compreendo isso.’
Há uma regra técnica de que um analista, se surgirem
sintomas dúbios como esse durante o tratamento, não
os submeterá ao seu próprio julgamento mas os encaminhará
a um médico que esteja ligado à análise –
um médico consultor, talvez -, mesmo se o próprio
analista for médico e até mesmo bem versado em seus
conhecimentos médicos.
‘E por que se deve elaborar uma regra que me parece tão
desnecessária?’
Não é desnecessária; de fato, existem várias
razões para ela. Em primeiro lugar, não constitui
um bom plano que uma combinação de tratamento orgânico
e psíquico seja levada a efeito pela mesma pessoa. Em segundo
lugar, a relação na transferência pode tornar
desaconselhável ao analista examinar o paciente fisicamente.
E em terceiro, o analista tem todos os motivos para duvidar se ele
está desprovido de preconceitos, visto seus interesses estarem
tão intensamente dirigidos para os fatores psíquicos.
‘Compreendo agora sua atitude para com a análise
leiga de maneira bem clara. O senhor deliberou que deve haver analistas
leigos. E visto que não pode contestar a impropriedade deles
quanto à sua tarefa, está reunindo tudo o que pode
para desculpá-los e tornar-lhes a vida mais fácil.
Mas não posso nem de longe compreender por que deva haver
analistas leigos, que, afinal de contas, podem apenas ser terapeutas
de segunda classe. Estou pronto, no que me toca, a abrir uma exceção
no caso dos poucos leigos que já foram formados como analistas;
mas outras não devem ser criadas e os institutos de formação
devem ser submetidos à obrigação de não
aceitarem mais leigos para formação.’
Estou de acordo com o senhor, se puder ser demonstrado que todos
os interesses em jogo serão atendidos por essa restrição.
O senhor há de concordar que esses interesses são
de três espécies: o dos pacientes, o dos médicos
e – último em ordem mas não em importância
– o da ciência, querealmente abrange os interesses de
todos os futuros pacientes. Vamos examinar esses três pontos
juntos?
Para o paciente, portanto, é uma questão de indiferença
se o analista for um médico ou não, contanto somente
que o perigo de sua condição ser mal compreendida
fique excluído pelo relatório médico necessário
antes do início do tratamento e em algumas ocasiões
possíveis durante o curso do mesmo. Para ele é incomparavelmente
mais importante que o analista deva possuir qualidades pessoais
que o tornem digno de confiança, e que ele deva ter adquirido
o conhecimento e a compreensão, bem como a experiência,
que, somente estes, possam tornar-lhe possível cumprir sua
tarefa. Poder-se-ia pensar que a autoridade de um analista seria
prejudicada se o paciente soubesse que ele não é médico
e que não pode, em certas situações, passar
sem o apoio de um médico. Naturalmente jamais deixamos de
informar os pacientes sobre a qualificação de seu
analista, e temos sido capazes de nos convencer de que os preconceitos
profissionais não encontram eco neles, estando prontos para
aceitar uma cura de qualquer direção da qual provenha
– o que, incidentalmente, a profissão médica
de há muito descobriu, para sua profunda mortificação.
Nem os analistas leigos que praticam a análise em nossos
dias são um bando casual de rebotalho, mas pessoas de educação
acadêmica, doutores em filosofia, educadores, juntamente com
algumas mulheres de grande experiência na vida e marcante
personalidade. A análise, à qual todos os candidatos
num instituto de formação analítica têm
de submeter-se, é ao mesmo tempo o melhor meio de formar
um opinião sobre sua aptidão pessoal para o desempenho
de sua exigente profissão.
Agora quanto ao interesse dos médicos. Não julgo
que esse interesse possa lucrar com a incorporação
da psicanálise à medicina. O currículo médico
já dura cinco anos e os exames finais avançam até
o sexto ano. De poucos em poucos anos são feitas novas exigências
ao aluno, sem o cumprimento das quais o cadebal deste para o futuro
teria que ser declarado insuficiente. O acesso à profissão
médica é muito difícil e a clínica não
é nem muito satisfatória nem muito remuneradora. Se
alguém apoiar a exigência, por certo plenamente justificada,
de que os médicos devem também familiarizar-se com
a parte mental da doença, e se por causa disto se ampliar
a instrução médica a ponto de abranger certo
preparo para a análise, isto implica ulterior sobrecarga
do currículo e um correspondente prolongamento do período
letivo. Não sei se os médicos ficarão satisfeitos
com essa conseqüência de sua reivindicação
em relação à análise. Mas dificilmente
se pode fugir a esse fato. E isto num período em que as condições
da existência material se deterioram de tal forma para as
classes das quais os médicos são recrutados,um período
no qual a geração mais jovem se vê compelida
a provar suas necessidades por si mesma com a maior brevidade possível
na vida.
Talvez, no entanto, o senhor escolha não sobrecarregar os
estudos médicos com o preparo para a prática analítica,
mas julgue mais conveniente que os futuros analistas sigam sua formação
necessária somente após a conclusão dos seus
estudos médicos. Talvez diga que a perda de tempo que isso
implica não seja de importância prática alguma,
visto que, afinal de contas, um jovem com menos de trinta anos de
idade jamais gozará da confiança dos seus pacientes,
a qual é um sine qua non para proporcionar assistência
mental. Sem dúvida talvez se dissesse como resposta que um
médico recém-saído da faculdade e que se dedique
a doenças físicas não pode esperar ser tratado
pelos seus pacientes também com grande respeito e que um
jovem analista poderia muito bem preencher seu tempo trabalhando
numa clínica psicanalítica para pacientes externos
sob a supervisão de profissionais experimentados.
Mas o que me parece mais importante é que com essa sua proposta
o senhor está dando apoio a um desperdício de energia
para o qual, nestes tempos difíceis, realmente não
posso encontrar qualquer justificativa econômica. O tratamento
analítico, é verdade, cruza o campo da educação
médica, mas um não inclui o outro. Se – o que
pode parecer fantástico hoje em dia – alguém
tivesse de fundar uma faculdade de psicanálise, nesta teria
de ser ensinado muito do que já é lecionado pela escola
de medicina: juntamente com a psicologia profunda, que continua
sempre como a principal disciplina, haveria uma introdução
à biologia, o máximo possível de ciência
da vida sexual e familiarização com a sintomatologia
da psiquiatria. Por outro lado, a instrução analítica
abrangeria ramos de conhecimento distantes da medicina e que o médico
não encontra em sua clínica: a história da
civilização, a mitologia, a psicologia da religião
e a ciência da literatura. A menos que esteja bem familiarizado
nessas matérias, um analista nada pode fazer de uma grande
massa de seu material. À guisa de compensação,
a grande massa do que é ensinado nas escolas de medicina
não lhe é de utilidade alguma para suas finalidades.
Um conhecimento de anatomia dos ossos tarsianos, da constituição
dos carboidratos, do curso dos nervos cranianos, uma compreensão
de tudo o que a medicina trouxe à luz sobre as causas excitantes
bacilares da doença e os meios de combatê-las, sobre
reações do soro e sobre neoplasmas – todo esse
conhecimento, que é indubitavelmente do mais alto valor em
si, não obstante não lhe é de nenhuma conseqüência;
não lhe interessa; nem o ajuda diretamente a compreender
uma neurose e a curá-la, nem contribuir para um aguçamento
daquelas faculdades intelectuais às quaissua ocupação
faz as maiores exigências. Não se pode objetar que
o caso é o mesmo quando um médico segue algum outro
ramo especial de medicina – a odontologia, por exemplo: nesse
caso, também, ele poderá não precisar de parte
daquilo em que precisa ser aprovado nos exames e muito terá
que aprender além disso, em relação ao que
sua escolaridade não o preparou. Mas os dois casos não
podem ser colocados no mesmo pé de igualdade. Na odontologia
os grandes princípios da patologia – as teorias da
inflamação, da supuração, da necrose
e do metabolismo dos órgãos corporais – ainda
conservam sua importância. Mas a experiência de um analista
está em outro mundo, com outros fenômenos e outras
leis. Por mais que a filosofia possa ignorar o abismo entre o físico
e o mental, ele ainda existe para a nossa experiência imediata
e ainda mais para os nossos empreendimentos práticos.
É injusto e inconveniente tentar compelir uma pessoa que
deseja libertar alguém do tormento de uma fobia ou de uma
obsessão a seguir a estrada indireta do currículo
médico. Nem esse esforço terá qualquer êxito,
a menos que resulte inteiramente na supressão da análise.
Imagine uma paisagem na qual dois caminhos levam ao topo de uma
colina de onde se descortina um panorama – um curto e reto,
o outro longo, sinuoso e tortuoso. Tenta-se impedir o caminho curto
mediante um aviso proibitório, talvez porque passa por alguns
canteiros de flores que se deseja proteger. A única possibilidade
que se tem de a proibição ser respeitada é
se o caminho curto for íngreme e difícil, enquanto
o mais longo for uma subida suave. Se, contudo, esse não
for o caso, pode-se imaginar o uso da proibição e
o destino dos canteiros! Temo que se conseguirá compelir
os leigos a estudarem medicina tão pouco quanto serei capaz
de induzir os médicos a aprenderem análise, pois o
senhor conhece a natureza humana tão bem quanto eu.
‘Se o senhor tiver razão, de que o tratamento analítico
não pode ser efetuado sem formação especial,
mas que o currículo médico não pode suportar
ainda mais o fardo de um preparo para ele, e que os conhecimentos
médicos são, em grande medida, desnecessários
para um analista, como chegaremos ao médico ideal que esteja
à altura de todas as tarefas de sua vocação?’
Não posso prever a maneira de sair dessas dificuldades,
nem é da minha alçada ressaltá-la. Compreendo
apenas duas coisas – primeiro que a análise constitui
um estorvo para o senhor e que a melhor coisa seria que ela não
existisse, embora os neuróticos, sem dúvida, constituam
também um estorvo; e em segundo lugar, que os interesses
de todos os que se preocupam com esse assunto seriam por enquanto
atendidos se os médicos pudessem resolver tolerar uma classe
de terapeutas que os aliviariam do tédio de tratar asneuroses
psicogênicas enormemente comuns, enquanto ficariam em permanente
contato com eles em benefício dos pacientes.
‘Essa é a última palavra sobre o assunto? ou
tem algo mais a dizer?’
Sim, realmente. Eu quis apresentar um terceiro interesse –
o da ciência. O que tenho a dizer sobre isso pouco lhe interessará;
mas, por comparação, é de toda a importância
para mim.
Pois não consideramos absolutamente conveniente para uma
psicanálise ser devorada pela medicina e encontrar seu último
lugar de repouso num livro de texto de psiquiatria sob a epígrafe
‘Métodos de Tratamento’, juntamente com procedimentos
tais como sugestão hipnótica, auto-sugestão
e persuasão, que, nascidas da nossa ignorância, têm
de agradecer a indolência e a covardia da humanidade por seus
efeitos efêmeros. Merece melhor destino e, pode-se esperar,
o terá. Como uma ‘psicologia profunda’, uma teoria
do inconsciente mental, pode tornar-se indispensável a todas
as ciências que se interessam pela evolução
da civilização humana e suas principais instituições
como a arte, a religião e a ordem social. Em minha opinião
ela já proporcionou a essas ciências considerável
ajuda na solução de seus problemas. Mas essas são
apenas pequenas contribuições em confronto com o que
poderia ser alcançado se historiadores da civilização,
psicólogos da religião, filósofos e assim por
diante concordassem em manejar o novo instrumento de pesquisa que
está a seu serviço. O emprego da análise para
o tratamento das neuroses é somente uma das suas aplicações;
o futuro talvez demonstre que não é o mais importante.
Seja como for, seria errôneo sacrificar todas as outras aplicações
a essa única, só porque diz respeito ao círculo
de interesses médicos.
Pois aqui uma perspectiva ulterior estende-se adiante, a qual não
pode ser invadida com impunidade. Se os representantes das várias
ciências mentais devem estudar a psicanálise a fim
de ser capazes de aplicar seus métodos e ângulos de
abordagem ao seu próprio material, não lhes será
suficiente parar de repente nos achados que são formulados
na literatura analítica. Eles devem aprender a análise
da única maneira possível – submetendo-se eles
próprios a uma análise. Os neuróticos que necessitam
de análise contariam assim com a companhia de uma segunda
classe de pessoas, que aceitam a análise por motivos intelectuais,
mas que sem dúvida também acolherão o aumento
da capacidade que incidentalmente alcancem. Para efetuar essa análise
far-se-á necessário grande número de analistas,
para os quais qualquer conhecimento médico terá particularmente
pouca importância. Mas esses ‘analistas didatas’
– vamos chamá-los assim – precisarão ter
tido uma educação especificamente cuidadosa. Se se
quiser que ela nãofique tolhida, eles devem receber a oportunidade
de colher experiência de casos instrutivos e informativos;
e visto que pessoas saudáveis, às quais também
falta o motivo da curiosidade, não se apresentam para análise,
é mais uma vez somente com os neuróticos que será
possível aos analistas didatas – sob cuidadosa supervisão
– ser educados para a sua atividade não-médica
subseqüente. Tudo isso, contudo, requer certa dose de liberdade
de movimento, não sendo compatível com restrições
mesquinhas.
Talvez o senhor não creia nesses interesses puramente teóricos
da psicanálise ou não possa permitir-lhes que afetem
a questão prática da análise leiga. Então
deixe-me adverti-lo de que a psicanálise tem ainda outra
esfera de aplicação, que se acha fora do âmbito
da lei sobre charlatanismo e com relação à
qual os médicos quase não farão reivindicação.
Refiro-me à aplicação à educação
de crianças. Se uma criança começa a mostrar
sinais de um desenvolvimento indesejável, se se tornar mal-humorada,
indócil e desatenta, o pediatra e mesmo o médico da
escola nada poderão fazer por ela, mesmo se a criança
apresenta sintomas neuróticos claros, tais como nervoso,
perda de apetite, vômitos ou insônia. Um tratamento
que combine a influência analítica com medidas educacionais,
levado a efeito por pessoas que não se envergonhem de interessar-se
pelos assuntos próprios do mundo da criança, e que
compreendam como orientar-se na vida mental de uma criança,
pode ocasionar duas coisas ao mesmo tempo: a eliminação
dos sintomas neuróticos e a reversão da mudança
de caráter que havia começado. Nosso reconhecimento
da importância dessas neuroses obscuras das crianças,
como sendo o que alicerça a disposição para
graves doenças mais adiante na vida, ressalta essas análises
infantis como excelente método de profilaxia. A análise
indubitavelmente ainda tem seus inimigos. Não sei se estes
dispõem de meios ao seu alcance para paralisar as atividades
desses analistas educacionais ou educadores analíticos. Não
penso que seja muito provável; mas nunca se pode estar muito
certo.
Além disso, voltando à nossa questão do tratamento
analítico dos neuróticos adultos, mesmo aí
anda não esgotamos todas as linhas de abordagem. Nossa civilização
nos impõe uma pressão quase intolerável e exige
um corretivo. Será demasiado fantástico esperar que
a psicanálise, apesar de suas finalidades, possa estar destinada
à tarefa de preparar a humanidade para tal corretivo? Talvez
mais uma vez um norte-americano tenha a idéia de gastar algum
dinheiro para que os ‘assistentes sociais’ do seu país
sejam formadosanaliticamente e para transformá-los num grupo
de auxiliares a fim de combaterem as neuroses da civilização.
‘Ah! uma nova espécie de Exército da Salvação!’
Por que não? Nossa imaginação sempre obedece
a padrões. A corrente daqueles ansiosos por aprender, que
então fluirá para a Europa, será obrigada a
passar por Viena, pois aqui o desenvolvimento da análise
poderá ter sucumbido a um trauma prematuro de proibição.
O senhor está sorrindo? Não estou dizendo isso como
um suborno em seu apoio. De modo algum. Sei que o senhor não
me conhece, nem posso garantir que isso me venha a acontecer. Mas
de uma coisa eu sei. De forma alguma é tão importante
qual a decisão que o senhor possa adotar no tocante à
questão da análise leiga. Isso poderá ter um
efeito local. Mas as coisas que realmente importam – as possibilidades
na psicanálise de desenvolvimento interno – jamais
poderão ser afetadas por regulamentos e proibições.
Pós-escrito (1927)
Logo após eu ter escrito o pequeno volume que constituiu
o ponto de partida da presente apreciação, houve uma
acusação de charlatanismo apresentada contra um membro
não-médico de nossa Sociedade, o Dr. Theodor Reik,
nos tribunais de Viena. Em geral se sabe, penso eu, que depois de
todos os trâmites preliminares terem sido concluídos
e grande número de pareceres técnicos terem sido recebidos,
a acusação foi abandonada. Não creio que isso
tenha sido resultado do meu livro. Sem dúvida o argumento
da procuradoria foi muito fraco, e a pessoa que apresentou a acusação
como a parte agravada demonstrou ser uma testemunha indigna de confiança.
De modo que a anulação do processo contra o Dr. Reik
provavelmente não deverá ser considerada como um julgamento
ponderado dos tribunais de Viena sobre a questão geral da
análise leiga. Quando tracei a figura da ‘Pessoa Imparcial’
que foi meu interlocutor em meu opúsculo, tive diante de
minha mente um dos nossos altos funcionários. Este foi um
homem com quem eu próprio conversara sobre o caso de Reik
e a quem, a pedido dele, escrevera um parecer confidencial sobre
o assunto. Eu sabia que não tinha conseguido convertê-lo
aos meus pontos de vista, e foi por isso que fiz com que meu diálogo
com a Pessoa Imparcial terminasse também sem acordo.
Nem esperei que conseguisse êxito na obtenção
de unanimidade da atitude dos próprios analistas em relação
ao problema da análise leiga. Qualquer um que compare os
pontos de vista expressos pela Sociedade Húngara nessa apreciação
com os do grupo de Nova Iorque talvez conclua que meu livro não
produziu efeito algum e que cada um persiste em sua opinião
anterior. Mas também não creio nisso. Penso que muitos
dos meus colegas modificaram seu extremo parti pris e que a maioria
aceitou minha opinião de que o problema da análise
leiga não deve ser solucionado nos mesmos moldes do uso tradicional,
mas que decorre de uma nova situação e, portanto,
exige novo julgamento.
Além disso, a forma que dei a todo o exame parece que contou
com aprovação. Minha tese principal foi no sentido
de que a questão importante não é se um analista
possui um diploma médico, mas se ele recebeu a formação
especial necessária à prática da análise.
Isto serviu de ponto de partida para uma discussão, que foi
avidamente adotada, quanto a qual é a formação
mais adequada para um analista. Meu ponto de vista foi eainda continua
sendo o de que não é a formação prescrita
pela universidade para futuros médicos. O que se conhece
como educação médica parece-me uma maneira
árdua e indireta de abordagem da profissão da análise.
Sem dúvida ela oferece a um analista muito do que lhe é
indispensável. Mas ela o sobrecarrega de muitas outras coisas
que ele jamais utilizará, havendo o perigo de desviar seu
interesse e todo seu modo de pensamento da compreensão dos
fenômenos psíquicos. Um esquema de formação
para analistas ainda tem de ser criado. Deve ele abranger elementos
das ciências mentais, da psicologia, da história e
do estudo da evolução. Há tanto a ser ensinado
em tudo isso que é justificável omitir do currículo
qualquer coisa que não tenha relação direta
alguma com a prática da análise e somente sirva indiretamente
(como qualquer outro estudo) de formação para o intelecto
e para os poderes de observação. É fácil
fazer face a essa sugestão objetando-se que as escolas analíticas
dessa natureza não existem e que eu estou simplesmente estabelecendo
um ideal. Um ideal, sem dúvida. Mas um ideal que pode e deve
ser concretizado. E em nossos institutos de formação,
apesar de todas as suas insuficiências próprias de
seus verdes anos, essa concretização já teve
início.
Não terá escapado aos meus leitores que naquilo que
afirmei presumi como axiomático algo que é ainda violentamente
debatido no exame. Presumi, vale dizer, que a psicanálise
não é um ramo especializado da medicina. Não
vejo como é possível discutir isso. A psicanálise
é uma parte da psicologia; não da psicologia médica
no velho sentido, não da psicologia de processos mórbidos,
mas simplesmente da psicologia. Certamente não é o
todo da psicologia, mas sua subestrutura e talvez mesmo todo o seu
alicerce. A possibilidade de sua aplicação a finalidades
médicas não nos deve desorientar. A eletricidade e
a radiologia também têm sua aplicação
médica, mas a ciência à qual ambas pertencem
é, não obstante, a física. Nem a situação
delas pode ser afetada por argumentos históricos. Toda a
teoria da eletricidade teve sua origem numa observação
de um preparado muscular nervoso; contudo, ninguém sonharia
hoje em considerá-la como parte da fisiologia. Argumenta-se
que a psicanálise foi, afinal de contas, descoberta por um
médico no curso dos seus esforços para assistir seus
pacientes. Mas isto claramente não está nem nesse
ponto nem naquele. Além disso, o argumento histórico
é uma faca de dois gumes. Poderíamos acompanhar a
história e recordar a inamistosidade e mesmo a animosidade
com que a profissão médica tratou a análise
bem desde o começo. Isso pareceria implicar que ela não
pode fazer quaisquer reivindicações à análise
no momento atual. E embora eu não aceite essaimplicação,
ainda sinto certas dúvidas quanto a se o presente cortejar
da psicanálise pelos médicos está baseado,
do ponto de vista da teoria da libido, na primeira ou na segunda
subfases de Abraham – se desejam tomar posse de seu objeto
com a finalidade de destruí-lo ou de preservá-lo.
Gostaria de considerar o argumento histórico por mais um
momento. Visto que é em mim pessoalmente que estamos interessados,
posso lançar um pouco de luz, para qualquer um que esteja
interessado, sobre meus próprios motivos. Após quarenta
e um anos de atividade médica, meu autoconhecimento me diz
que nunca fui realmente médico no sentido adequado. Tornei-me
médico por ter sido compelido a desviar-me do meu propósito
original; e o triunfo da minha vida está em eu haver, após
uma viagem longa e indireta, encontrado meu caminho de volta à
minha senda mais antiga. Não tenho conhecimento algum de
haver tido qualquer anseio, na minha primeira infância, de
ajudar a humanidade sofredora. Minha disposição sádica
inata não foi muito forte, de modo que não tive qualquer
necessidade de desenvolver essa disposição dos seus
derivados. Nem jamais ‘brinquei de médico’; minha
curiosidade infantil evidentemente escolheu outros caminhos. Em
minha juventude senti uma necessidade absorvente de compreender
algo dos enigmas do mundo em que vivemos e talvez mesmo de contribuir
com alguma coisa para a solução dos mesmos. O meio
mais esperançoso de alcançar esse fim pareceu ser
matricular-me na faculdade de medicina; no entanto, mesmo após
isto realizei experiências – sem êxito –
com a zoologia e a química, até que afinal, sob a
influência de Brücke, que teve mais influência
sobre mim do que qualquer outra pessoa em toda minha vida, fixei-me
em fisiologia, embora naqueles dias ela estivesse muito estreitamente
restrita à histologia. Naquela ocasião já havia
sido aprovado em todos os meus exames médicos, mas não
adquiri qualquer interesse por coisa alguma que tivesse a ver com
a medicina, até que o professor que eu tão profundamente
respeitava advertiu-me de que em vista das minhas circunstâncias
materiais precárias eu não poderia possivelmente seguir
uma carreira teórica. Assim, passei da histologia do sistema
nervoso para a neuropatologia e depois, incentivado por novas influências,
comecei a interessar-me pelas neuroses. Quase não penso,
contudo, que a minha falta de autêntico temperamento médico
tenha causado grande dano aos meus pacientes, pois não é
muito vantajoso para os pacientes se o interesse terapêutico
do seu médico tiver uma ênfase emocional muito marcante.
Eles são maisbem ajudados se ele executar sua tarefa friamente
e obedecendo às regras tão de perto quanto possível.
Sem dúvida o que acabo de dizer lança pouca luz sobre
o problema da análise leiga; destinou-se apenas a apresentar
minhas credenciais pessoais, como sendo eu próprio um partidário
do valor inerente da psicanálise e da independência
de sua aplicação em relação à
medicina. Mas objetar-se-á, a esta altura, que se a psicanálise,
considerada como uma ciência, for considerada uma subdivisão
da medicina ou da psicologia, isto será uma questão
puramente acadêmica e de nenhum interesse prático.
O verdadeiro ponto em debate, dir-se-á, é diferente,
a saber, a aplicação da análise ao tratamento
de pacientes; até onde ela alega que faz isso, ela deve contentar-se,
continuará o argumento, em ser aceita como um ramo especializado
da medicina, como a radiologia, por exemplo, e em submeter-se às
regras formuladas para todos os métodos terapêuticos.
Reconheço que isto seja assim; admito-o. Só quero
sentir-me seguro de que a terapia não destruirá a
ciência. Infelizmente, as analogias só nos levam até
certa distância; logo se alcança um ponto no qual os
assuntos da comparação seguem caminhos divergentes.
O caso da análise difere do da radiologia. Não é
preciso que um físico tenha um paciente a fim de estudar
as leis que regem os raios X. Mas o único tema da psicanálise
são os processos mentais dos seres humanos e é somente
nos seres humanos que ele pode ser estudado. Por motivos que podem
facilmente ser compreendidos, os seres humanos neuróticos
oferecem material muito mais instrutivo e acessível do que
os normais, e sonegar esse material a qualquer um que deseje estudar
e aplicar a análise é privá-lo de boa metade
das suas possibilidades de formação. Não tenho,
naturalmente, intenção alguma de pedir que os interesses
de pacientes neuróticos sejam sacrificados àqueles
de instrução e de pesquisa científica. O objetivo
do meu pequeno volume sobre a questão da análise leiga
foi precisamente demonstrar que, se certas precauções
forem observadas, os dois interesses poderão facilmente ser
harmonizados e que os interesses da medicina, conforme compreendidos
de maneira correta, não serão os últimos a
lucrar com tal solução.
Eu mesmo formulei todas as precauções necessárias
e posso afirmar com segurança que o debate nada acrescentou
a esse ponto. Mas gostaria de acrescentar que a ênfase foi
dada muitas vezes da maneira que não fazia justiça
aos fatos. O que se disse sobre as dificuldades do diagnóstico
diferencial e da incerteza, em muitos casos, de chegar a uma decisão
sobre os sintomas somáticos – situações,
vale dizer, nas quais os conhecimentos médicos e a intervenção
médica são necessários –, tudo isso é
perfeitamente verdadeiro. Não obstante, o número de
casos em que dúvidas dessa espéciejamais surgem de
maneira alguma e que não se exige um médico é
por certo incomparavelmente maior. Esses casos podem ser bem desinteressantes
cientificamente, mas desempenham papel bastante importante na vida
para justificarem as atividades de analistas, que são perfeitamente
capazes para lidar com eles. Há algum tempo analisei um colega
que dava provas de uma aversão particularmente forte à
idéia de permitir que qualquer um se empenhasse numa atividade
médica caso não fosse médico. Eu estava em
condições de dizer-lhe: ‘Estamos agora trabalhando
há mais de três meses. Em que ponto de nossa análise
tive ocasião de fazer uso dos meus conhecimentos médicos?’
Ele admitiu que eu não tivera tal ocasião.
Além disso, não atribuo grande importância
ao argumento de que um analista leigo, porque ele deve estar preparado
para consultar um médico, não tenha autoridade aos
olhos dos seus pacientes e não seja tratado com mais respeito
do que pessoas tais como endireitas* ou massagistas. Mais uma vez,
a analogia é imperfeita – bem independente do fato
de que o que rege os pacientes no reconhecimento, por parte destes,
da autoridade é, em geral, a transferência emocional
deles e que a posse de um diploma médico não os impressiona
tanto como os médicos acreditam. Um analista leigo não
terá dificuldade alguma em angariar tanto respeito como é
devido a um assistente pastoral secular. Realmente, as palavras
‘assistente pastoral secular’ bem poderiam servir como
uma fórmula geral para descrever a função que
o analista, seja ele médico ou leigo, tem de realizar em
relação ao público. Nossos amigos do clero
protestante, e mais recentemente também entre o clero católico,
são muitas vezes capazes de liberar seus paroquianos das
inibições de sua vida cotidiana confirmando-lhes a
fé – depois de primeiro lhes haver oferecido um pouco
de informação analítica sobre a natureza dos
seus conflitos. Nossos antagonistas, os ‘psicólogos
do indivíduo’ adlerianos, se esforçam por produzir
um resultado semelhante em pessoas que se tenham tornado instáveis
e deficientes, provocando-lhes o interesse pela comunidade social
– após terem primeiro lançado alguma luz sobre
um único recanto de sua vida mental e lhes terem revelado
o papel desempenhado na doença deles pelos seus impulsos
egoístas e suspeitosos. Ambos esses processos, que tiram
sua força por estarem baseados na análise, têm
seu lugar na psicoterapia. Nós que somos analistas pomos
diante de nós como nosso objetivo a análise mais completa
e mais profunda possível de quem quer que possa ser nosso
paciente. Não procuramos levar-lhe alívio recebendo-o
na comunidade católica, protestante ou socialista. Antes
procuramos enriquecê-lo a partir de suas própria fontes
internas, colocando à disposição do seu ego
aquelas energias que, devido à repressão, se acham
inacessivelmente confinadas em seuinconsciente, bem como aquelas
que seu ego é obrigado a desperdiçar na tarefa infrutífera
de manter essas repressões. Uma atividade como essa é
trabalho pastoral no melhor sentido da palavra. Atribuímos
a nós mesmos uma finalidade demasiado alta? A maioria dos
nossos pacientes merece os cuidados que esse trabalho exige de nós?
Não seria mais econômico escorar suas fraquezas de
fora antes do que reconstruí-las de dentro? Não posso
dizer; mas existe algo mais que eu realmente sei. Na psicanálise
tem existido desde o início um laço inseparável
entre cura e pesquisa. O conhecimento trouxe êxito terapêutico.
Era impossível tratar um paciente sem aprender algo de novo;
foi impossível conseguir nova percepção sem
perceber seus resultados benéficos. Nosso método analítico
é o único em que essa preciosa conjunção
é assegurada. É somente pela execução
do nosso trabalho pastoral analítico que podemos aprofundar
nossa compreensão que desponta da mente humana. Essa perspectiva
de ganho científico tem sido a feição mais
orgulhosa e feliz do trabalho analítico. Devemos sacrificá-la
a bem de quaisquer considerações de natureza prática?
Algumas observações feitas no curso dessa apreciação
levaram-me a suspeitar que, apesar de tudo, meu livro sobre análise
leiga foi mal compreendido sob um aspecto. Os médicos se
têm defendido de mim, como se eu houvesse declarado que eles
eram em geral incompetentes para praticar a análise e como
se eu tivesse afirmado como uma senha que reforços médicos
deviam ser rejeitados. A idéia provavelmente surgiu de eu
ter sido levado a declarar no curso de minhas observações
(que tinham uma finalidade controversa em vista) que analistas médicos
não formados eram ainda mais perigosos que os leigos. Talvez
possa tornar clara minha verdadeira opinião sobre essa questão
dando eco a uma observação cínica sobre as
mulheres que certa vez apareceu em Simplicissimus. Um homem se queixava
a outro das fraquezas e da natureza melindrosa do belo sexo. ‘Seja
como for’, replicou seu companheiro, ‘as mulheres são
a melhor coisa que temos dessa espécie’. Sou obrigado
a admitir que, enquanto as escolas que desejamos para formação
de analistas ainda não existirem, as pessoas que tenham tido
uma educação preliminar em medicina constituem o melhor
material para futuros analistas. Temos o direito de exigir, contudo,
que elas não devem confundir sua educação preliminar
com uma formação completa, que elas devem superar
aunilateralidade que é estimulada pela instrução
nas escolas de medicina e que devem resistir à tentação
de flertar com a endocrinologia e o sistema nervoso autônomo,
quando aquilo de que se necessita é de uma percepção
de fatos psicológicos com a ajuda de uma estrutura de conceitos
psicológicos. Também partilho do ponto de vista de
que todos aqueles problemas que se relacionam com a ligação
entre os fenômenos psíquicos e seus fundamentos orgânicos,
anatômicos e químicos podem ser abordados somente por
aqueles que tenham estudado ambos, isto é, por analistas
médicos. Não se deve esquecer, contudo, que isso não
é o todo da psicanálise, e que quanto ao seu outro
aspecto nunca podemos passar sem cooperação de pessoas
que tenham tido uma educação preliminar nas ciências
mentais. Por motivos práticos temos tido o hábito
– e isso é verdade, incidentalmente, também
em relação às nossas publicações
– de distinguir entre análise médica e aplicada.
Mas essa não é uma distinção lógica.
A verdadeira linha de divisão situa-se entre a análise
científica e suas aplicações igualmente nos
setores médico e não-médico.
Nessas apreciações, a rejeição mais
rude da análise leiga foi expressa por nossos colegas norte-americanos.
Algumas palavras em resposta a eles, não serão, penso,
fora de propósito. Dificilmente posso ser acusado de fazer
mau uso da análise para finalidades controversas, se expressar
a opinião de que a resistência por parte deles provém
inteiramente de fatores práticos. Eles vêem como em
seu próprio país os analistas leigos submetem a análise
a todas as espécies de finalidades nocivas e ilegítimas
e, em conseqüência, causam dano tanto aos seus pacientes
como ao bom nome da análise. Não é, portanto,
de se admirar que em sua indagação eles evitem o mais
amplamente possível tais inescrupulosos fomentadores de discórdia
e tentem impedir que quaisquer leigos tenham participação
na análise. Mas esses fatos já são suficientes
para reduzir o significado da posição norte-americana,
pois a questão da análise leiga não deve ser
resolvida somente com base em considerações práticas,
e as condições locais nos Estados Unidos não
podem ser a única influência determinante sobre nossos
pontos de vista.
A resolução aprovada por nossos colegas norte-americanos
contra os analistas leigos, baseada como essencialmente está
em razões práticas, parece-me, não obstante,
pouco prática, pois não poderá afetar qualquer
dos fatores que regem a situação. Ela é mais
ou menos equivalente a uma tentativa de repressão. Se for
impossível impedir os analistas leigos de exercerem suas
atividades e se o público não apoiar a campanha contra
eles, não seria mais aconselhável reconhecer o fato
de sua existência oferecendo-lhes oportunidades de formação?
Talvez não fosse possível, dessa maneira, alcançar
certainfluência sobre eles? E, se lhes fosse oferecida como
incentivo a possibilidade de receberem a aprovação
da profissão médica e de serem convidados a cooperar,
será que eles não teriam certo interesse em elevar
seu próprio padrão ético e intelectual?
(VIENA, junho de 1927)
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